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Trair é uma decisão, não um deslize

Foto: IA

A frase “trair é uma decisão, não um deslize” sintetiza uma das verdades mais incômodas e necessárias sobre as dinâmicas afeto-sexuais contemporâneas. Em uma cultura que muitas vezes tenta suavizar a quebra de pactos afetivos sob o manto da “fraqueza humana” ou da “tentação incontrolável”, compreender a infidelidade como uma escolha deliberada é o primeiro passo para resgatar a responsabilidade emocional no relacionamento a dois.

A traição raramente acontece no vácuo de um segundo imprevisível. Ela é o ponto final de um percurso pavimentado por pequenas escolhas diárias: o silêncio diante do incômodo, a busca por validação externa, o flerte cultivado em segredo e a decisão consciente de ultrapassar os limites previamente estabelecidos pelo casal.

Como apontou a psicanalista e terapeuta de casais Esther Perel em suas extensas pesquisas sobre o tema, a infidelidade frequentemente fala menos sobre a falta de amor pelo parceiro e mais sobre uma busca desenfreada por uma versão perdida de si mesmo. No entanto, Perel ressalta que essa busca envolve uma escolha direta de priorizar o desejo individual em detrimento da lealdade e do bem-estar do outro.

Do ponto de vista psicanalítico, o conceito de deslize funciona como um mecanismo de defesa, uma racionalização para eximir o sujeito da culpa e do custo psíquico de seus atos. O psicanalista Jacques Lacan sustentava que o desejo humano é complexo, mas que o sujeito é plenamente responsável por sua posição desejante.

Ao categorizar a traição como “um erro involuntário”, esvazia-se a maturidade do indivíduo, tratando-o como um joguete sem controle sobre suas próprias ações. A escolha de trair exige logística, dissimulação e, acima de tudo, o consentimento interno para quebrar a confiança depositada.

O dano mais severo da infidelidade não reside apenas no ato físico ou emocional com uma terceira pessoa, mas no golpe profundo desferido contra a estrutura da verdade no relacionamento.

A traição introducing o pacto do engano: para sustentar a mentira, constrói-se um cenário de ilusão onde o parceiro traído vive uma realidade adulterada, privado do direito fundamental de escolha sobre a própria vida.

Enfrentar a verdade, por mais dolorosa e desconfortável que seja, é um ato de respeito e maturidade emocional. Dialogar sobre a insatisfação, a perda do desejo, as fissuras na relação ou até mesmo sobre o fim do amor exige coragem.

Assumir a vulnerabilidade de dizer “não estou feliz” ou “meus sentimentos mudaram” pode provocar dor imediata, mas preserva a dignidade de ambas as partes e a integridade da história construída juntos.

Por outro lado, a traição substitui o diálogo necessário pelo engano deliberado. Ela retira do outro a possibilidade de reagir com base em fatos reais, transformando o vínculo afetivo em um jogo assimétrico de poder. A dor do término ou da crise desencadeada pela honestidade é transformadora e permite a cura; a dor da traição, contudo, destrói a base sobre a qual a autoestima e a capacidade de confiar do ser humano são edificadas.

Reconhecer que trair é uma decisão não visa apenas apontar culpados, mas resgatar a ética do cuidado no amor. Amar não elimina o surgimento de novos desejos ou crises relacionais, mas exige a responsabilidade adulta de encarar a verdade de frente, honrando a si mesmo e àquele que escolheu caminhar ao seu lado.

Olga Cruz

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