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Confesso que, toda vez que me deparo com uma nova previsão para o fim dos tempos, sinto uma mistura de curiosidade histórica e um sopro de alívio por ainda não ter feito nada drástico na minha conta bancária, com meus cartões e boletos vencidos.
Inspirada pelas reflexões e análises instigantes do meu colega Augusto Castro, em seu texto publicado no Portal Primeira Página, resolvi pesquisar sobre essa mania ancestral que a humanidade tem de agendar o próprio fim.
A bola da vez resgatada pelos debates científicos e matemáticos aponta para uma data com precisão quase cirúrgica – 13 de novembro de 2026!
A origem dessa profecia moderna não vem de um profeta místico ou de um asteroide errante, mas sim de uma equação publicada em 1960 na revista Science pelo físico Heinz von Foerster e seus colaboradores. Analisando o crescimento exponencial da população humana desde o surgimento da nossa espécie, a equipe chegou à conclusão matemática de que, se mantivéssemos o ritmo demográfico da época, a população atingiria o infinito em novembro de 2026. Em termos práticos, o esmagamento demográfico total, uma sobrecarga no ecossistema global.
Como bem nos lembra a trajetória das profecias humanitárias, o fim do mundo é um alvo em constante movimento. A humanidade já sobreviveu a uma coleção impressionante de “apocalipses garantidos”, tanto na Antiguidade quanto no próprio Século XX.

Clássicos do Pavor
O Primeiro Milênio (Ano 1000 d.C.) – Conforme a virada do primeiro milênio cristão se aproximava, o pavor do Juízo Final tomou conta da Europa. Terras foram doadas, dívidas foram perdoadas e multidões abandonaram suas colheitas para esperar o apocalipse nos templos. O ano 1001 chegou com a mesma rotina de sempre, forçando os teólogos a recalcular os calendários.
O Grande Dilúvio de 1524 – O matemático e astrólogo alemão Johannes Stöffler previu que um alinhamento de planetas em Peixes traria um dilúvio de proporções bíblicas em fevereiro de 1524. A aristocracia europeia chegou a construir arcas e barcos especiais. O resultado? Uma chuva fraca e um constrangimento generalizado para os astrólogos da época.
A Matemática Trágica de Thomas Malthus (1798) – No final do século XVIII, Malthus apresentou uma teoria que apavorou os economistas: a população crescia em progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos crescia apenas em progressão aritmética. A consequência seria a fome generalizada no século XIX. Malthus só não previa a modernização da agricultura, que multiplicou a oferta de alimentos de forma sem precedentes.
O pânico do Cometa Halley (1910) – Quando os astrônomos descobriram que o cometa Halley em 1910 passaria pela Terra — e que ela continha o gás tóxico cianogênio —, o pavor tomou conta do globo. Máscaras de gás e “pílulas anticometa” foram vendidas em escala global. O cometa passou e o ar continuou perfeitamente respirável.
O Século XX e a Fábrica de Apocalipses
Depois que Von Foerster rabiscou sua equação nos anos 60, a Segunda Metade do Século XX virou um verdadeiro festival de datas fatais:
O Alinhamento do Efeito Júpiter (1982) – Em 1974, os cientistas John Gribbin e Stephen Plagemann publicaram um livro argumentando que, em 10 de março de 1982, um alinhamento raro de todos os planetas do Sistema Solar causaria forças de maré gravitacionais capazes de desencadear terremotos devastadores na Falha de San Andreas, destruindo Los Angeles. Chegou o dia 10 de março, os planetas se alinharam e a única coisa que tremeu foi a credibilidade dos autores.
O “Verão de Fogo” de Nostradamus (Julho de 1999) – O famoso astrólogo francês do século XVI deixou uma quadra prevendo que, no “ano 1999, sétimo mês, virá do céu um grande Rei do Terror”. Livros e documentários foram lançados prevendo a Terceira Guerra Mundial ou a queda de um meteoro devastador para julho daquele ano. O mês passou, o Rei do Terror não deu as caras e o mundo seguiu firme.
O Bug do Milênio (31 de Dezembro de 1999 para 1º de Janeiro de 2000) – À medida que o ano 2000 se aproximava, o pavor mudou do místico para o digital. Os sistemas de computador antigos registravam os anos com apenas dois dígitos (“99”). O medo global era de que, na virada para o “00”, os sistemas entendessem o ano como 1900, provocando o colapso de redes elétricas, a queda de aviões e a falha de sistemas bancários. Engenheiros do mundo todo trabalharam contra o tempo e, na meia-noite do Réveillon, a única coisa que caiu foram as taças de champanhe.
O que a história nos ensina, e o que o texto de Augusto Castro nos faz refletir, é que a ciência e a matemática cumprem um papel vital não para adivinhar a data exata da nossa ruína, mas para emitir alertas precoces. A equação de Von Foerster em 1960 não errou por ignorância, mas porque não previa a transição demográfica global, a queda nas taxas de natalidade e a urbanização que desaceleraram o crescimento populacional nas décadas seguintes.
E claro, seria uma injustiça imperdoável fechar essa lista sem mencionar a maior febre apocalíptica da cultura pop recente: o fatídico 21 de dezembro de 2012. Quando a internet descobriu que o calendário Maia de “Longa Contagem” encerrava um ciclo de 5.125 anos exatamente nessa data, o pânico foi geral!
De filmes de Hollywood a bunkers sendo vendidos a preço de ouro, o mundo prendeu a respiração esperando por tsunamis, inversões dos polos magnéticos ou a colisão com o planeta fictício Nibiru. No fim, os próprios arqueólogos tiveram que vir a público explicar o óbvio: para os maias, a data significava apenas a virada de um ciclo de calendário, o equivalente mesoamericano ao nosso Réveillon.
O Sol nasceu normalmente no dia 22 de dezembro de 2012 e, se a tradição histórica se mantiver, em 14 de novembro de 2026, continuaremos exatamente assim: tomando o nosso café da manhã, pagando boletos e discutindo qual será a data do próximo fim do mundo da vez!
Olga Cruz





