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Golpe da falsa vaga de emprego tem entrevista fake e até roubo de biometria: ‘Me senti impotente’

Os estelionatos vem crescendo exponencialmente no Brasil nos últimos anos. Em 2025, foram 2,26 milhões de casos registrados (taxa de 1.059,4 por 100 mil habitantes), conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um recorde da série histórica.

Explorando a fragilidade daqueles que estão atrás de um trabalho, seja para se realocar no mercado ou encontrar uma oportunidade melhor na carreira, os golpistas passaram a aplicar o chamado golpe das “falsas vagas de emprego”.

Os principais objetivos dos criminosos são roubar senhas, cometer fraude financeira ou usar informações pessoais — e até biometria facial — para obter vantagens, como abertura de contas bancárias ou conseguir empréstimos.

Para isso, as estratégias são variadas, conforme relatos de vítimas e especialistas: vão desde o anúncio de vagas e concursos de mentira até entrevistas com falsos recrutadores.

Golpistas anunciam falsas vagas de emprego para atrair vítima e obter senhas e vantagens financeiras.
Golpistas anunciam falsas vagas de emprego para atrair vítima e obter senhas e vantagens financeiras. 

Os golpistas chegam a criar sites, páginas nas redes sociais e a pagar para que o conteúdo fraudulento fique bem ranqueado em buscadores da internet. No desespero de conseguir o emprego, as vítimas não notam as falcatruas.

“Quando alguém está desesperado para conseguir um emprego, o nível de critério e discernimento pode diminuir”, diz Leonardo Pinheiro, sócio da Clavis, plataforma brasileira de cibersegurança voltada à proteção de empresas contra riscos e ameaças digitais.

Outra tática comum é a de determinar que a vítima pague por um curso falso como condição obrigatória para assumir o novo emprego — o dinheiro, claro, não vai para nenhuma empresa de qualificação profissional, mas para os bolsos dos estelionatários.

Foi o que aconteceu com a nutricionista Izabelle Mendonça, de 26 anos. Ela tinha acabado de se formar e estava em busca do primeiro emprego. Moradora do Rio de Janeiro, ela disparou o currículo para diversos hospitais. Um deles entrou em contato e disse que aceitaria admiti-la.

A informação vinha acompanhada da ordem de ir até o hospital e dar andamento à admissão. “Só que, durante o processo, me disseram que um dos requisitos era ter a certificação de um curso específico. E eu não tinha”.

Ela pesquisou e confirmou de que o curso era real. Os golpistas deram a indicação de onde ela poderia fazer a qualificação, com a promessa de que receberia o certificado no prazo. “Como queria muito a vaga e estava com aquela ansiedade de quem quer começar a trabalhar, não desconfiei.”

Ela entrou em contato com o lugar e pagou os R$ 300 cobrados pelo curso fake. Minutos depois, todos com quem ela estava conversando a bloquearam no aplicativo de mensagens. “Naquele momento, caiu a ficha de que eu tinha sido enganada”, lamentou a jovem.

“Fiquei muito frustrada e, principalmente, com a sensação de impotência. Eu estava começando minha vida profissional, acreditando que tinha encontrado uma oportunidade de trabalho e acabei perdendo dinheiro justamente por confiar na proposta”, acrescentou.

Quais são as diferentes formas de golpe

Leonardo Pinheiro explica que a maior parte dos anúncios de vagas fraudulentas é enviada via e-mail e mensagens de celular (SMS). Esses canais são mais fáceis para fazer disparos em massa e têm menos barreiras de proteção.

Geralmente, os golpistas enviam um link de inscrição, que leva as vítimas a um formulário online que pede por informações pessoais e exige a criação de uma conta com senha. Por ser um site fraudulento, os criminosos conseguem identificar a chave de acesso.

“Como muita gente utiliza a mesma senha em diferentes serviços, o golpista pode conseguir acessar seu e-mail, redes sociais e outras contas”, diz Pinheiro.

Há outros caminhos mais sofisticados e que geram menos desconfiança. Um deles é criar sites com um aspecto verdadeiro e até criar campanhas para que o conteúdo seja um dos primeiros a ser encontrado nas plataformas de busca.

Há casos também em que os golpistas encenam uma entrevista de emprego. O objetivo é gravar a vítima e obter dela a biometria facial para acessar contas bancárias, conseguir empréstimos, fazer abertura de novas contas e realizar transações.

Em agosto, uma mulher foi presa pela Polícia Militar de Minas Gerais, em Belo Horizonte, suspeita de alugar salas em coworking com identidades falsas e fazer entrevistas de emprego. Uma das vítimas disse à polícia que, ao fornecer dados e passar por um processo de biometria facial solicitado na entrevista, os suspeitos tentaram financiar um veículo em seu nome.

Outro caminho comum é o criar anúncios em plataformas conhecidas. No LinkedIn, rede social especializada em carreiras, divulgação de vagas e recrutamento de candidatos, é fácil encontrar relatos de usuários informando sobre o golpe das falsas vagas.

No site, a SPTrans, empresa municipal que faz a gestão do sistema de transporte coletivo por ônibus em São Paulo, foi usada como trampolim pelos estelionatários.

Criminosos anunciaram falsa vaga da SPTrans no LinkedIn, rede social voltada à procura de vagas e à carreira.
Criminosos anunciaram falsa vaga da SPTrans no LinkedIn, rede social voltada à procura de vagas e à carreira. Foto: Reprodução

Os golpistas anunciaram uma vaga para a posição de assistente administrativo comercial e exigiam dos candidatos o pagamento de um curso como requisito para avançar na contratação, com a promessa de que seriam reembolsados.

“Disseram que eu precisaria realizar um curso pelo Telegram, pagando um determinado valor, e que posteriormente a empresa faria o reembolso”, disse uma usuária que chegou a receber um e-mail dizendo ter sido aprovada no processo seletivo.

Ela conta que quase caiu no golpe. “Foi nesse momento que percebi que havia algo muito errado. Empresas sérias não costumam exigir pagamentos para que um candidato participe de um processo seletivo”, acrescentou.

A SPTrans emitiu um comunicado para desmentir a informação e alertou os usuários. “Não efetue nenhum pagamento e não forneça dados pessoais”, disse a empresa.

Procurado, o LinkedIn informou que as políticas da plataforma “deixam claro que todas as vagas publicadas devem ser autênticas e legítimas” e afirmou que vai tomar as “as medidas cabíveis de acordo com essas políticas.”

Uma pesquisa feita pela rede social apontou que os brasileiros estão mais preocupados em cair nas fraudes. De acordo com o levantamento, 83% dos profissionais do Brasil dizem fazer uma checagem para saber se uma vaga é falsa, e 61% afirmam estar mais atentos a possíveis golpes na comparação com o ano anterior.

Concursos públicos também servem de iscas

Além das vagas, concursos públicos também chegam a ser inventados para atrair quem busca maior estabilidade na carreira.

Em julho, Luiza (nome fictício), soube de um concurso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e se interessou em fazer a prova. Desempregada há um ano, ela pesquisou em um buscador e, segundo ela, encontrou um link que seria patrocinado — que aparece no topo das buscas — para efetuar a inscrição.

No site, Luiza viu ainda o logo do “gov.br” (como é usado na plataforma oficial do governo federal) e um aviso de que o prazo para se inscrever estava se esgotando.

Com pressa e sem desconfiar, ela inseriu os dados pessoais e pagou a taxa de inscrição de cerca de R$ 100. Na sequência, foi encaminhada para uma página que a informava sobre a necessidade de realizar um exame médico para saber se estava clinicamente apta a fazer o teste.

A vítima começou a achar estranho quando viu que o endereço da clínica que ela tinha selecionado não batia com o endereço da clínica verdadeira. Depois, com mais atenção, percebeu frases sensacionalistas espalhadas pelo site e notou que o link só abria via celular e não pelo notebook. “Eu chamei meu marido, falei: ‘Cara, acho que eu acabei de cair no golpe’.”

A sensação foi de tristeza e revolta. “Era um mês que eu estava super apertada de grana, fatura alta e eu acabei caindo nesse golpe. Foi um desespero ainda maior por estar desempregada”, lamentou.

Concurso falso do IBGE foi criado pelos criminosos para cooptar vítimas.
Concurso falso do IBGE foi criado pelos criminosos para cooptar vítimas. Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Procurado, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), responsável pelo GOV.BR, diz que atua com diferentes entidades para a proteção da plataforma, incluído o Centro de Prevenção, Tratamento e Resposta a Incidentes Cibernéticos de Governo (CTIR.Gov). Entre as atividades, estão monitoramento e busca ativa de fraudes.

Em relação ao concurso do IBGE, a pasta diz que o MGI fez 81 pedidos de retirada de “conteúdos maliciosos” às autoridades, e informou que os cidadãos podem encaminhar links suspeitos para o e-mail cisc@gestao.gov.br. O IBGE também foi procurado, mas não retornou. O espaço segue aberto.

Indícios de golpe

As inconsistências encontradas por Luiza são comuns nos processos seletivos falsos e saber identificá-las ajuda a se esquivar dos estelionatários. Mensagens apressando os candidatos, com uma urgência excessiva e uma linguagem que não combina com a formalidade que a situação pede são alguns exemplos.

Leonardo Pinheiro cita outros, como:

  • Promessas irrealistas — uma vaga que oferece um salário muito alto para poucas horas de trabalho;
  • Remunerações incompatíveis com o cargo — se uma vaga oferece um salário acima do que costuma ser praticado para a função;
  • Contratação rápida — quando o candidato se inscreve e já está aprovado, sem ser submetido a outras etapas;
  • Pedido de informações sensíveis logo no início, como dados bancários, documentos, fotos ou vídeos;
  • Cobranças por cursos ou exames médicos.

“Para mim, o principal é lembrar que as empresas não costumam cobrar para que você participe de um processo seletivo. A cobrança de boletos ou taxas de inscrição é um sinal importante de fraude”, diz Pinheiro.

Nem sempre, porém, os indícios são tão evidentes. No caso do processo seletivo para a SPTrans, a descrição da vaga não aparenta anormalidades. O salário anunciado era de R$ 3.800 a R$ 4.200 (bruto), junto dos valores de vale-alimentação (R$ 650/mês), vale-refeição (R$ 35 por dia útil) e auxílio home office (R$ 250/mês).

Havia, porém, inconsistências: a foto do anúncio diz que o nome da contratante é confidencial, mas os próprios golpistas informam a identidade da SPTrans no logo e no título da vaga. Além disso, o e-mail para onde o currículo deve ser enviado está descrito de forma pouco convencional: “AKTLTRANSPORTESVAGAS (aroba) outlook.com”.

Nesse sentido, a psicóloga e especialista em Recursos Humanos Marcella Moura orienta que as próprias empresas precisam ser aliadas para evitar esse tipo de crime.

“É imprescindível apresentar informações de quem está recrutando, falar sobre a empresa, sobre os anos de atuação e também sobre os clientes com que atuam”, afirma Marcella, que é sócia da Acerta Consultoria, empresa focada em gestão de pessoas e que também faz o recrutamento de candidatos.

Ela afirma que, quanto mais transparentes são os contratantes, mais seguros ficarão os candidatos. “Com certeza, pessoas se aproveitam da ansiedade do candidato diante da busca por uma oportunidade de trabalho para captar esses dados. Por isso, é muito importante estar atento.”

Para evitar fraudes, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos recomenda consultar canais oficiais de quem organiza o concurso, verificar edital, inscrições e formas de pagamento e desconfiar de links recebidos por mensagens, redes sociais ou anúncios. Para o uso do GOV.BR, a orientação é ter senha exclusiva, elevar a conta ao nível Ouro e ativar a verificação em duas etapas.

Ainda segundo a pasta, quem forneceu dados a uma página suspeita deve trocar a senha; e, se tiver caído no golpe e feito um Pix, é necessário procurar imediatamente a instituição financeira e solicitar o Mecanismo Especial de Devolução (MED), que pode ser acionado em até 80 dias. Em caso de suspeita de fraude, o MGI orienta também fazer um Boletim de Ocorrência.

Estadão

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