Com taxa de 12,65% em 2025, Estado registra queda histórica da gravidez na adolescência: gestão de Riedel amplia ações nas escolas
Uma gravidez não planejada na adolescência pode mudar muito mais do que os meses seguintes na vida de uma menina. Pode significar deixar a escola, adiar a entrada no mercado de trabalho e enfrentar, ainda muito jovem, responsabilidades para as quais nem sempre existe uma rede de apoio. Em situações mais graves, sobretudo entre meninas menores de 15 anos, pode também ser um sinal de violência.
É essa dimensão humana que a ginecologista Vanessa Chaves Miranda, coordenadora da Linha Materno Infantil do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, coloca no centro da discussão sobre prevenção.
“Nessa fase da vida, a gestação está relacionada ao aumento da violência doméstica, ao abandono escolar e à diminuição das oportunidades de acesso ao mercado de trabalho, em razão das mudanças que uma gravidez precoce impõe”, afirma.
Os números de Mato Grosso do Sul mostram que esse cenário vem mudando. O Estado encerrou 2025 com a menor taxa de gravidez na adolescência dos últimos dez anos. A participação de mães adolescentes no total de nascimentos caiu de 14,92%, em 2022, para 12,65% em 2025.
O recuo fica ainda mais evidente quando se observa um período mais longo. Entre jovens de 15 a 19 anos, o número de nascidos vivos passou de 8.315, em 2015, para 2.861 em 2025. Entre meninas menores de 15 anos, caiu de 514 para 171.
Sob a gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, o Governo de Mato Grosso do Sul intensificou a capacitação das equipes de saúde para inserção de DIUs e implantes contraceptivos, ampliou ações educativas nas escolas e reuniu representantes dos 79 municípios em atividades de formação.
“A estratégia busca garantir informação, acolhimento e acesso aos métodos antes que uma gravidez não planejada interrompa estudos, projetos e oportunidades”, afirma Riedel.
A queda é significativa, mas não elimina os desafios. Especialmente porque os 171 nascimentos registrados entre meninas menores de 15 anos deslocam parte da discussão da prevenção da gravidez para outro campo igualmente urgente: o da proteção contra a violência.
Escolha precisa chegar ao posto de saúde
Uma das apostas da política estadual está na ampliação dos chamados contraceptivos reversíveis de longa duração, os LARCs. Nesse grupo estão dispositivos intrauterinos e implantes contraceptivos capazes de permanecer ativos durante anos e que podem ser retirados quando a mulher decidir engravidar.
Para Vanessa Chaves Miranda, facilitar o acesso a esses métodos é uma das estratégias mais eficazes para evitar uma gravidez não planejada.
“O método mais eficaz é garantir acesso à informação e aos contraceptivos, especialmente aos métodos de longa duração”, explica.
A médica destaca que DIUs e implantes apresentam eficácia comparável à da laqueadura, mas são reversíveis. Há ainda uma vantagem especialmente importante na adolescência: eles não dependem de uma rotina diária de uso, como ocorre com a pílula.
“Eles não exigem que a paciente se lembre de tomar um comprimido. Após a colocação, o método passa a agir de forma independente, o que explica sua alta eficiência”, afirma.
Em 2025, o Estado realizou oficinas em Nova Andradina, Campo Grande e Costa Rica para capacitar profissionais da Atenção Primária na oferta desses contraceptivos.
Na prática, entretanto, a efetividade da política depende do que acontece quando uma adolescente entra em uma unidade de saúde. Ela precisa encontrar profissionais preparados para conversar sem julgamento, explicar as alternativas disponíveis e respeitar sua decisão. “A possibilidade de prevenção não pode depender da renda da família nem da capacidade de viajar até um centro maior”, pontua o governador.
Também não se resume à colocação de um DIU ou implante. A orientação sobre preservativos, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, consentimento e relações sem violência continua sendo parte fundamental do cuidado.
Planejamento reprodutivo, nesse sentido, não significa escolher pela adolescente, mas criar condições para que ela possa escolher.
E essa decisão pode repercutir durante anos. Para Vanessa, quando a jovem consegue decidir o momento em que pretende ter filhos, ganha melhores condições para preservar projetos de estudo, trabalho e autonomia.
“Quando a paciente pode decidir o momento da gestação, ela conquista uma melhora significativa na qualidade de vida”, afirma.
Informação também começa na escola
A prevenção não termina na porta do posto de saúde. Para alcançar adolescentes antes que uma gravidez ocorra, o Governo do Estado ampliou em 2025 a integração entre as áreas de Saúde e Educação.
Por meio do projeto Educar para Transformar, temas relacionados à saúde sexual e reprodutiva passaram a ser trabalhados com estudantes das escolas públicas. As atividades abordam métodos contraceptivos, prevenção de infecções, gravidez não planejada, direitos, saúde feminina e violência.
“O objetivo é oferecer informação segura a adolescentes que, muitas vezes, dependem de redes sociais, amigos ou conversas marcadas por medo e desinformação”, reforça Riedel.
O projeto havia capacitado 160 profissionais para alcançar aproximadamente 1.200 adolescentes e jovens em regiões vulneráveis de Campo Grande. Ao longo de 2025, também foram realizadas nove oficinas territoriais, além de uma formação estadual sobre prevenção do HPV e gravidez na adolescência com representantes dos 79 municípios.
A presença da escola é considerada estratégica porque permite abordar o assunto antes de uma situação de emergência. Para que o resultado se mantenha, porém, a orientação precisa ter continuidade, linguagem adequada à idade dos estudantes e diálogo com as famílias.
Prevenir também reduz riscos à saúde
A gravidez precoce não produz consequências apenas sobre a trajetória escolar e profissional. Segundo Vanessa, uma gestação não planejada também está associada ao aumento de complicações médicas.
“A gestação não planejada é responsável pelo aumento do número de morbidades na gravidez, como hipertensão, diabetes, trabalho de parto prematuro, além do aumento da mortalidade materna e neonatal”, afirma.
De acordo com a ginecologista, a redução das gestações não planejadas pode contribuir para uma queda de até 40% na mortalidade materna.
É nesse ponto que a ampliação do acesso à contracepção deixa de representar somente uma política de planejamento familiar e passa a produzir efeitos sobre outros indicadores do sistema de saúde.
Mas existe uma faixa etária na qual contracepção e orientação sexual são apenas parte da resposta.
Quando a gravidez exige proteção
Os 171 nascimentos entre meninas menores de 15 anos registrados em 2025 não podem ser analisados somente como consequência da falta de acesso a contraceptivos.
Nessa faixa etária, uma gravidez pode indicar violência sexual e exige que o atendimento ultrapasse os limites do pré-natal.
Vanessa chama atenção para a responsabilidade dos profissionais de saúde na identificação desses casos. Segundo ela, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) orienta os ginecologistas a permanecerem atentos a sinais de violência contra meninas e adolescentes.
“Hoje existe uma campanha para que o ginecologista esteja atento aos aspectos de violência contra a mulher, principalmente durante a adolescência”, sustenta.
Quando existem indícios, acrescenta, a rede de proteção precisa ser acionada. “É obrigação do médico envolver a assistência social para investigar a situação e, quando necessário, acionar a Promotoria da Infância e da Adolescência, garantindo a proteção dessa jovem.”
Nesses casos, o cuidado envolve saúde, escola, assistência social, conselho tutelar, segurança e Justiça. É necessário identificar o que ocorreu, verificar se a menina continua em situação de risco e garantir acompanhamento físico, psicológico e social, além de condições para que permaneça na escola.
É justamente nesse grupo que os avanços estatísticos convivem com uma realidade que ainda exige atenção permanente.
Queda precisa chegar a todos os territórios
O índice estadual mostra uma trajetória de redução, mas a próxima etapa é fazer com que o avanço alcance de maneira mais homogênea as diferentes regiões de Mato Grosso do Sul.
Fronteiras, aldeias, assentamentos, periferias urbanas e comunidades distantes dos grandes centros podem enfrentar condições diferentes de acesso aos serviços de saúde, à informação e ao atendimento sigiloso.
Por isso, um dos desafios é aprofundar o acompanhamento da gravidez na adolescência considerando não apenas a idade, mas também município, raça, etnia e condição social.
“A meta estadual é ampliar a oferta dos métodos de longa duração e a qualificação profissional
nos municípios, reforçando a integração com educação e assistência social”, diz Riedel.
Para a gestão Riedel, consolidar a redução significa transformar um indicador de saúde em algo perceptível na vida cotidiana: mais meninas permanecendo na escola, mais adolescentes capazes de planejar seu futuro e mais acesso à informação antes que uma decisão seja determinada pela falta dela.
Mato Grosso do Sul chegou ao menor índice de gravidez na adolescência de uma década. Mas os próprios números mostram que o trabalho está longe de terminado. Cada um dos 171 nascimentos registrados entre menores de 15 anos lembra que, em determinados casos, a questão não é apenas garantir que uma menina possa escolher quando ser mãe.
É também assegurar que, quando uma criança aparece grávida diante da escola, do posto de saúde ou da rede de assistência, o Estado seja capaz de enxergar nela alguém que precisa, antes de tudo, ser protegida.
Assessoria





