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Por Olga Cruz
Há frases infelizes. Há frases inadequadas. E há frases que, quando saem da boca de quem ocupa a Presidência da República, causam indignação justamente porque revelam o quanto ainda precisamos avançar na maneira como se fala sobre mulheres e, principalmente, sobre meninas.
Na noite de segunda-feira, 28 de setembro, durante um comício em Belém (PA), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tentando explicar a importância do exame de próstata para os homens, soltou mais uma daquelas expressões que me fazem perguntar: como alguém, diante de um microfone, cercado de assessores e ocupando o cargo mais importante do País, consegue considerar natural dizer algo assim?
“As mulheres aprendem desde pequenas”.
Não, senhor presidente! Mulheres não aprendem a tomar toque desde pequenas! E, meninos também não aprendem a tomar toque e nem devem ser tocados desde pequenos!
E talvez seja justamente aí que esteja o aspecto mais perturbador da frase.
Meninas precisam aprender, desde pequenas, que seus corpos lhes pertencem. Precisam aprender que ninguém pode tocá-las sem consentimento. Precisam saber reconhecer um toque inadequado, dizer não, pedir ajuda e contar a alguém quando se sentirem ameaçadas ou violadas.
Por isso, para mim, não existe contexto capaz de tornar essa escolha de palavras aceitável.
Num País em que o abuso sexual contra crianças e adolescentes é uma realidade que exige enfrentamento permanente, transformar o corpo feminino, ainda por cima desde a infância, em instrumento de uma comparação desse tipo não é engraçado, não é coloquial e muito menos irrelevante.
É uma fala que considero machista, grosseira e profundamente inadequada!
E o que mais me incomoda é essa recorrência de frases que parecem sair sem qualquer filtro, como se determinadas palavras pudessem ser recolhidas depois que atravessam o microfone.
Não podem.
Palavras têm peso.
E as palavras de um presidente têm um peso ainda maior.
Quando alguém ocupa a Presidência da República, não fala apenas como indivíduo. Fala diante de milhões de pessoas. Suas declarações repercutem, atravessam redes sociais, chegam às famílias, às escolas, aos movimentos de proteção às mulheres e às pessoas que carregam histórias que jamais deveriam ser tratadas com tamanha leviandade.
Eu sou mulher. E talvez por isso essa frase tenha me causado uma indignação ainda maior.
Quantas mulheres carregam desde a infância lembranças de toques que nunca deveriam ter acontecido?
Quantas meninas demoraram anos para compreender que aquilo que viveram era abuso?
Quantas permaneceram caladas por medo, vergonha ou porque ninguém lhes ensinou que aquele corpo era delas e que ninguém tinha o direito de ultrapassar seus limites?
É diante dessa realidade que ouvir um presidente dizer que mulheres “aprendem a tomar toque desde pequenas” deixa de ser apenas uma frase mal construída.
Para mim, é uma expressão de um machismo que tantas mulheres passam a vida tentando combater: a naturalização da ideia de que o corpo feminino está mais disponível ao toque, à invasão, ao comentário e à exposição.
E NÃO está!
E NÃO deveria estar!
Não importa se alguém disser que “não foi isso que ele quis dizer”. Estou falando daquilo que efetivamente foi dito.
Porque chega um momento em que a responsabilidade pela palavra precisa ser de quem a pronuncia, e não de quem a escuta e depois é obrigado a procurar uma interpretação mais confortável para justificá-la.
Um presidente precisa saber o peso da própria voz.
Precisa entender que determinados assuntos exigem cuidado.
Precisa compreender que mulheres e meninas não podem continuar aparecendo em discursos públicos como recurso para piadas, comparações infelizes ou frases de efeito.
E talvez seja isso que mais me indigne nessa declaração: em pleno 2026, depois de tantos anos de luta para ensinar nossas meninas a reconhecer limites, denunciar abusos e compreender que ninguém possui direito sobre seus corpos, ainda precisamos explicar o óbvio.
Menina não “aprende a tomar toque”.
Menina aprende que seu corpo merece respeito.
Menina aprende que pode dizer NÃO.
Menina aprende que não deve guardar segredos que lhe causem medo.
Menina aprende que abuso precisa ser denunciado.
Menina precisa ser ouvida.
Menina precisa ser respeitada.
Menina precisa ser protegida.
E quem ocupa a Presidência da República deveria ser um dos primeiros a compreender a enorme diferença entre essas coisas.
Porque certas palavras não são apenas infelizes.
Elas ferem…
E algumas delas atingem justamente cicatrizes que milhões de mulheres passaram uma vida inteira tentando curar.
É importante dizer, também, que não acredito que o presidente Lula tenha usado essa expressão com a intenção de afirmar, em uma conotação sexual, que mulheres gostam ou desejam ser tocadas desde pequenas. Não é disso que se trata a minha crítica, e seria injusto atribuir a ele uma intenção que, a meu ver, não estava naquela fala. O problema é outro, e talvez justamente por isso mereça ser apontado.
Não é a primeira vez que Lula se dirige às mulheres ou fala sobre elas recorrendo a expressões infelizes, inadequadas e que parecem sair antes que se pense no peso que carregam. De um presidente da República, espera-se mais cuidado com as palavras. E, independentemente da intenção, continuo considerando inaceitável que uma expressão como essa seja usada por quem ocupa o mais alto cargo do País. Porque palavras têm contexto, têm história e, para muitas mulheres, também têm memória.
“Talvez essa frase tenha me atravessado de maneira ainda mais profunda porque sei que, para muitas meninas, inclusive para mim, a infância também pode guardar marcas de toques que jamais deveriam ter acontecido”.





