Demolidor: Renascido, série da Marvel exibida na Disney, coloca o Rei do Crime no poder e constrói um retrato inquietante de um governo baseado no medo, na força e na promessa de restaurar a ordem. As semelhanças com estratégias adotadas por Donald Trump são inevitáveis — embora a ficção preserve sua autonomia e não constitua uma representação direta da realidade.
Em sua primeira temporada, Demolidor: Renascido (Daredevil: Born Again) prova que deixou de ser apenas uma história de super-heróis. A série da Marvel produzida pela Disney mergulha em um terreno muito mais complexo: a política, o autoritarismo, a manipulação da opinião pública e a disputa pela própria ideia de democracia.
Wilson Fisk, o lendário Rei do Crime, chega ao cargo de prefeito de Nova York prometendo exatamente aquilo que tantos líderes populistas prometem ao redor do mundo: restaurar a segurança, derrotar o crime e devolver a cidade ao “cidadão de bem”.
A partir daí o uniforme do supervilão dá lugar a um terno impecável, mas a lógica permanece exatamente a mesma.
Quando o inimigo precisa ser criado
O grande mérito da série é mostrar que governos autoritários raramente se apresentam como autoritários. Eles surgem dizendo combater o caos.
Fisk constrói sua popularidade afirmando que Nova York foi sequestrada pela criminalidade e pelos chamados “justiceiros mascarados”. Para ele, figuras como Demolidor, Justiceiro e Homem-Aranha representam uma ameaça maior do que os próprios criminosos.
A retórica lembra fenômenos políticos reais, em que governos identificam grupos específicos como responsáveis pela desordem nacional – como os movimentos sociais de defesas de mulheres, negros, entre tantas minorias -, concentrando neles o discurso de combate e mobilizando apoio popular.
A Força-Tarefa de Fisk e a ICE de Trump
Talvez o paralelo mais evidente apareça na criação da Força-Tarefa Antivigilantes, uma unidade policial especial montada pelo prefeito para perseguir qualquer pessoa considerada fora da lei.
Na ficção, essa força recebe equipamentos especiais, poderes ampliados e ampla liberdade operacional.
A comparação com a ICE (Immigration and Customs Enforcement) durante os governos de Donald Trump surge naturalmente por algumas características em comum: forte investimento em operações ostensivas, ênfase no endurecimento da segurança pública e um discurso político centrado na ideia de restaurar a ordem por meio de uma atuação mais agressiva do Estado.
É importante destacar, porém, que as duas instituições têm naturezas diferentes. A ICE é uma agência federal real voltada à imigração e fiscalização alfandegária, enquanto a Força-Tarefa de Fisk é uma organização fictícia criada para perseguir vigilantes mascarados.
Ainda assim, a série parece dialogar com debates contemporâneos sobre militarização, ampliação dos poderes policiais e os limites entre segurança pública e garantias individuais.
A política do medo
Outra característica compartilhada por muitos governos contemporâneos aparece de forma quase didática em Born Again. O medo torna-se ferramenta política. Quanto maior a sensação de insegurança, maior a aceitação de medidas excepcionais. Prisões, operações espetaculares, ampliação dos poderes policiais e restrições de direitos passam a parecer justificáveis quando apresentado como necessário para proteger a população.
O personagem Fisk compreende isso perfeitamente, e sua maior arma nunca foi a força física e, sim, a narrativa.
A guerra contra a imprensa e as instituições
Ao longo da série, Fisk também procura desacreditar instituições que poderiam limitar seu poder. Embora o foco principal seja o enfrentamento aos vigilantes, percebe-se uma crescente tensão com setores da imprensa, do Judiciário e de outros espaços independentes.
Esse tipo de conflito também tem paralelo em democracias contemporâneas, onde diferentes líderes — de distintas orientações ideológicas — entram em confronto com veículos de comunicação, tribunais ou órgãos de fiscalização quando percebem esses atores como obstáculos à implementação de suas agendas.
Matt Murdock: o defensor da Constituição
Se Fisk representa o poder político concentrado, Matt Murdock, representa exatamente seu contraponto. Curiosamente, o Demolidor passa boa parte da série sem vestir o uniforme. Sua principal batalha acontece dentro dos tribunais.
É uma escolha narrativa simbólica. Enquanto Fisk tenta convencer a população de que somente a força pode salvar a cidade, Matt insiste que a verdadeira proteção da democracia reside nas instituições, no devido processo legal e no respeito às regras, mesmo quando elas parecem lentas ou imperfeitas.
A oposição entre ambos deixa de ser apenas física. Ela passa a ser filosófica.
Quando os super-heróis falam sobre o presente
A Marvel sempre utilizou seus personagens para comentar questões sociais. Nos quadrinhos, os X-Men discutiam preconceitos. O Capitão América refletia sobre patriotismo. Pantera Negra abordava colonialismo e identidade.
Já, Demolidor: Renascido segue essa tradição ao explorar temas como poder, segurança e democracia. Embora espectadores possam identificar semelhanças com acontecimentos e lideranças do mundo real — incluindo Donald Trump —, a série não apresenta equivalências literais. Em vez disso, utiliza a ficção para discutir tendências políticas e dilemas contemporâneos.
Talvez por isso a série provoque tanto debate, porque o maior adversário do Demolidor já não é um criminoso escondido nas sombras, e sim alguém que venceu as eleições, ocupa um cargo público e acredita agir em nome da ordem.
E essa talvez seja a forma mais sofisticada de vilania já apresentada pelo Universo Marvel: mostrar que, em certas circunstâncias, o maior perigo para uma democracia pode surgir não da ilegalidade explícita, mas da utilização das próprias instituições para concentrar poder e redefinir os limites entre segurança, liberdade e justiça.
Assistam, eu recomendo.
Por Rogério Alexandre Zanetti





