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Por que o “Tarifaço” da China sobre produtos brasileiros não vira manchete?

Taxa chinesa de 55% sobre importações acima de cota para carnes força dezenas de frigoríficos a paralisar produção e dar férias coletivas / Imagem gerada por IA

Enquanto os holofotes do debate econômico internacional se voltam frequentemente para as disputas fiscais com os Estados Unidos ou para as exigências ambientais da União Europeia, uma barreira comercial pesada e silenciosa afeta diretamente o agronegócio e a indústria brasileira: o protecionismo aplicado pela China.

Apesar de ser o maior parceiro comercial do Brasil, o gigante asiático impõe tarifações elevadas e barreiras não tarifárias sobre uma série de produtos brasileiros com alto valor agregado. No entanto, o tema raramente ocupa o topo da agenda pública ou gera grandes reações diplomáticas. Mas afinal, por que há um silêncio quase generalizado sobre o “tarifaço” chinês?

O peso do parceiro e a dependência do superávit

A primeira explicação para essa cautela diplomática e política reside no próprio volume do comércio bilateral. A China é o principal destino das exportações brasileiras, comprando volumes massivos de commodities essenciais, como soja, minério de ferro e petróleo bruto.

Esses três produtos, que entram no mercado chinês com tarifas relativamente baixas para suprir a demanda interna de comida e matéria-prima da segunda maior economia do mundo, garantem ao Brasil superávits comerciais recordes. Há um receio pragmático no governo e entre grandes exportadores de que qualquer ruído diplomático ou contestação veemente sobre as tarifas de outros setores possa retaliar ou desacelerar o fluxo bilionário dessas commodities cruciais.

O gargalo do valor agregado

A distorção fica evidente quando se analisa o tipo de produto afetado. Enquanto a China compra matérias-primas brutas sem grandes obstáculos, ela aplica alíquotas elevadas e exigências sanitárias e burocráticas rigorosas sobre bens processados e de maior valor agregado.

Produtos como carne bovina industrializada, açúcar refinado, papel e celulose com maior grau de processamento, além de itens manufaturados, enfrentam tarifas que desestimulam a industrialização brasileira. O resultado é a consolidação de um modelo de exportação primário-exportador: o Brasil vende o insumo barato e importa o produto acabado com alta margem de lucro.

Diplomacia da conveniência e pragmatismo econômico

Diferente das fricções comerciais abertas promovidas por potências ocidentais — onde sanções e tarifas são anunciadas com estardalhaço político —, a China opera sua política comercial de forma altamente estratégica e técnica. Ajustes em quotas de importação, exigências de certificação e barreiras fitossanitárias costumam ser usados como instrumentos flexíveis de controle de mercado sem a necessidade de grandes declarações públicas.

Do lado brasileiro, o pragmatismo fala mais alto. Setores afetados pelas altas tarifas chinesas costumam negociar nos bastidores, através de missões técnicas do Ministério da Agricultura e das Relações Exteriores, evitando expor o conflito na imprensa para não comprometer negociações em andamento.

A omissão oficial e a seletividade dos holofotes

Aprofundando esse cenário, torna-se evidente a cumplicidade do silêncio entre o governo federal e a grande mídia. Enquanto qualquer aceno de taxação ou medida protecionista vinda dos Estados Unidos é imediatamente convertido em manchetes alarmistas, coberturas especiais e inflamados discursos oficiais, o “tarifaço” chinês é sumariamente ignorado. O governo federal evita dar visibilidade ao problema para não desgastar a relação política com Pequim nem expor as fragilidades da diplomacia comercial brasileira. Paralelamente, a imprensa reproduz essa narrativa assimétrica, tratando ações norte-americanas com tom de crise iminente, ao mesmo tempo em que omite os severos impactos impostos pela China sobre a economia e os empregos no Brasil.

Um debate necessário para o futuro da indústria

A ausência desse tema na pauta principal do país esconde um desafio fundamental para o futuro econômico do Brasil: a reindustrialização e a diversificação da pauta exportadora.

Aceitar passivamente o modelo de trocas atual garante dólares no curto prazo via superávit primário, mas limita o crescimento da indústria nacional e a criação de empregos de maior qualificação. Trazer o “tarifaço” chinês para a mesa de debate não significa propor uma guerra comercial, mas sim exigir uma relação comercial mais equilibrada e madura, condizente com a importância estratégica que o Brasil representa para o abastecimento e a segurança alimentar da própria China.

Olga Cruz

*Adaptado do texto de Diogo Schelp – VEJA Negócios

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