Historicamente, as mulheres foram estimuladas a competir, enquanto os homens, em geral, foram ensinados a se apoiar e se proteger.
No combate ao bullying, serve para o wollyng também temos a Lei 13.185/15, mais conhecida como “Lei do Bullying” que criou o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, que obriga a produção e publicação de relatórios bimestrais das ocorrências de bullying nos estados e municípios visando o planejamento das políticas públicas.
Lendo uma reportagem essa semana que trazia a informação de que após anos do lançamento de “Beijinho no Ombro”, Valesca Popozuda reescreveu o hit de 2014 incentivando a sororidade:
“Desejo a todas inimigas vida longa, pra que elas vejam a cada dia mais nossa vitória.” Trocando por…”Desejo a todas as amigas vida longa, unidas vamos conquistar ainda mais vitórias.”
Que bela mudança!!!
Mas infelizmente ainda estamos longe do ideal.
A sociedade patriarcal colocou mulheres umas contra as outras desde que o mundo é mundo, desestimular esse tipo de comportamento o quanto antes, especialmente na vida de uma criança é fundamental para evitar traumas e estimular avanços futuros.
A psicanalista Lais Locatelli numa entrevista para o site GSHOW explicou que, além de não se atentarem para esse tipo de comportamento, alguns pais ainda estimulam a competição entre os filhos.
A situação pode ser ainda pior no caso das meninas, reforçando ideias de que elas precisam ser sempre “a mais estudiosa, inteligente, educada, talentosa, mais bonita e mais bem-sucedida”.
Da fala dela:
“É com nossas irmãs e irmãos que conhecemos o ciúme: ele é natural na infância. Mas pode ficar fixado pela vida inteira sem um manejo dos adultos. Essas situações podem ser dolorosas, traumáticas e, posteriormente, serem repetidas durante a vida.”
E cabe trazer outras formas de pressão das literaturas, cinemas e novelas, tais como a madrasta que humilha a enteada em favor das próprias filhas, a bruxa que é inimiga da princesa, a garota popular que odeia a novata do colégio, que humilha a mais pobre e a obesa e assim por diante.
Estas são temáticas comuns abordadas em livros, filmes e séries e que normalizam a competição entre o sexo feminino, quase sempre voltada para um final onde o homem é o troféu da história.
Também em fala para o site GSHOW temos a cientista social Daniele Dionizio, que assim se pronunciou:
“Apesar das produções midiáticas estarem deixando essa perspectiva de lado, as crianças seguem tendo contato com as narrativas clássicas, que compuseram o imaginário de gerações anteriores”.
Por séculos essas falas e comportamentos provocaram desunião que, sem perceber, beneficiam os homens que estão no poder, do ambiente de trabalho às esferas econômicas e políticas: “O homem ainda é visto como o mais confiável, o mais estável, racional e são ideias formadas pelo senso comum”.
E o que dizer da pressão estética que prega uma beleza inalcançável e irreal.
Essa pressão estética começa logo cedo na vida de muitas meninas e, mais uma vez, buscando a validação masculina.
A Daniele ainda complementa que por vezes sem perceber, as mulheres e adolescentes assimilam essas falas que as impede de criar laços com outras mulheres que são tidas como rivais, na disputa pela beleza e pela aceitação da sociedade e dos homens.
E vem a busca por procedimentos estéticos, onde a mulher é levada a um lugar de mutabilidade e instabilidade conforme a onda do momento: uma dieta milagrosa, uma cirurgia que virou moda, uma nova técnica de beleza ultramoderna e assim por diante.
E a psicanalista Laís arremata que: “A comparação é lugar perigoso para a saúde mental, mas lucrativo para o mercado”, e ressalta que a angústia, ansiedade, depressão, baixa autoestima e insegurança são sentimentos desencadeados por essa idealização do corpo estabelecido como ideal.
Ela acrescenta que as brasileiras Luciana Merlin Bervian e Dinorá Eliete Floriani fizeram um estudo relacionando a influência da competição intrasexual feminina e o consumo de produtos de luxo.
E segundo essa pesquisa, o consumo de produtos de alto valor pode ser usado com uma ferramenta de intimidação.
Elas relatam que os consumidores de países emergentes são mais propensos a exibir dispositivos ou acessórios para impulsionar e/ou melhorar sua aparência em comparação com outros, especialmente em comparação com rivais do mesmo sexo”.
“O mercado estimula coisas um pouco diferentes nos homens e nas mulheres: se para o homem são objetos fálicos, como carros, motos, camarotes, para a mulher seguimos com o padrão de beleza irreal”, defende Lais.
Muitas vezes, aquele objeto caríssimo nem atende a um desejo da pessoa, mas ao desejo de mostrar que você pode comprar aqueles itens, ou pior: não pode, mas compra mesmo assim! Além de se afundar em dívidas para comprar algo “está na moda”, bate a culpa por adquirir algo que não se tem real interesse. Essa história lhe soa familiar?
Sabe aquela piada ou comentário inocente disfarçado de crítica e preconceitos? “Que linda, ficou parecendo a fulana”, “está mais bonita que a fulana”, “fada sensata”, “fulana foram ofuscada pela outra”, “fulana foi pivô da separação” ou chamar alguém de magro não são elogios.
São falas assim que, como destaca Daniele, “contribuem para a formação do nosso pensamento com relação ao papel das mulheres”. Ou seja, reproduzidas no cotidiano e com certa frequência fazem um forte eco e afetam mulheres das mais diversas maneiras.
A união entre mulheres é capaz de transformar uma sociedade que ainda beneficia os homens. Não estamos dizendo que todas as mulheres devem se amar! Não é sobre questões individuais, mas sobre ter empatia, considerando os desafios que elas enfrentam por ser mulheres em um contexto em que as nossas necessidades não são priorizadas enquanto coletivo.”
Para a psicanalista Lais Locatelli, também é sobre levar a discussão para o ambiente de trabalho, lembrar que as mulheres têm muito em comum e “podemos compartilhar mais espaços ao invés de disputá-los”.
Essas falas de mulheres que estudam o assunto e que são baseadas em estudos e pesquisas nos fazem refletir sobre o assunto, especialmente nesse mês da mulher.
O que fazer para reduzir o wolling e incentivar a sororidade…???
Podemos modificar e vigiar para não incorrer em reproduzir comportamentos e discriminações.
Que tal mulheres um exercício diário e constante para mudar???
Não julgue outras mulheres.
Ofereça ajuda, ombro amigo, um abraço.
Se perceber uma mulher em apuros perto de você, faça alguma coisa! …
Não se compare a outra mulher.
Se você alçar um posto superior, incentive outras e não trate suas subordinadas e colegas de trabalho como rivais.
Não divulgue piadas e situações que discriminem as mulheres.
Não faça críticas pessoais quando deveriam ser direcionadas ao cargo e não a condição de ser mulher.
Não utilize termos pejorativos e discriminatórios tais como recalcada, invejosa, inimiga, falsiane, fofoqueira.
Arrume sua coroa sem que outros percebam e sem fazer alarde.
Que possamos avançar nessa discussão e mudanças de paradigmas em direção a plena sororidade.
Acredito que o dia que passarmos a compartilhar mais e competir menos com sororidade, a efetivação dos direitos da mulher e a sonhada equidade será mais rápida, num caminho de empatia e amor, sem medo de ser feliz!
Dra. Iacita Azamor Pionti
Advogada e presidente do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres





