A investigação sobre a morte de Letícia Ferreira Araújo, de 25 anos, atropelada pelo marido em 9 de agosto, ganhou nova interpretação. O caso, inicialmente registrado como feminicídio, foi reclassificado para homicídio culposo na direção de veículo automotor, ou seja, sem intenção de matar. Com isso, os casos de feminicídios em MS não são 36, mas 35 casos.
A mudança na tipificação do crime contra a vida de Letícia poderá reduzir a gravidade da acusação contra Vitor Ananias de Jesus, de 25 anos, resultando em uma pena máxima de três anos de prisão e não os 40 anos previstos no crime de feminicídio.
A Sejusp-MS (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) confirmou ao Primeira Página a mudança na qualificação do crime contra Letícia. Com isso, o monitor que atualiza em tempo real os casos em MS passou a ter um feminicídio a menos, não ultrapassando, mas empatando com os casos registrados em 2024.
“No mês de agosto de 2025, houve o registro, inicialmente, de um caso de feminicídio em Cassilândia-MS. Contudo, no decorrer das investigações, ficou comprovado que se tratava de um homicídio culposo na condução de veículo automotor. Por esse motivo, o fato foi alterado no sistema Sigo, modificando, portanto, a quantidade de feminicídios registrados em Mato Grosso do Sul.”
Desta forma, o Estado passa a tratar a morte de Letícia não como resultado de violência de gênero, mas como uma fatalidade, mesmo diante de relatos de testemunhas que apontaram uma sequência de agressões, perseguição e pedido de socorro da vítima no momento do crime.
Vale lembrar que Cassilândia já havia registrado um caso de feminicídio em maio, quando Thácia Paula Ramos de Souza, de 39 anos, foi encontrada morta em rio, após ficar 3 dias desaparecida. O marido dela, Andreyko Vannutty de Assis Machado, de 43, foi preso. Este foi o 9º caso de feminicídio em MS.
A reportagem procurou o delegado Rodrigo de Freitas, titular da 1ª DP de Cassilândia, mas não obteve retorno até o fechamento do material.
Diferença entre os crimes
Conforme o código penal brasileiro, a pena para homicídio culposo (quando não há intenção de matar) varia de 1 a 3 anos de detenção, enquanto o feminicídio, homicídio doloso motivado por violência doméstica ou discriminação de gênero, prevê reclusão de 20 a 40 anos.
A mudança na tipificação, portanto, pode permitir que o acusado cumpra pena em regime aberto ou até responda em liberdade.
Relembre o crime
O caso ocorreu em Cassilândia, no mês de agosto, justamente quando o estado realizava campanhas de combate à violência contra a mulher. Letícia foi morta após ser atropelada pelo próprio marido, Vitor Ananias de Jesus, também de 25 anos. Segundo testemunhas, o casal discutia momentos antes do atropelamento.
Uma vizinha relatou que, ao chegar em casa após ouvir os gritos de socorro, encontrou fumaça, o carro destruído contra um muro e Letícia caída no chão. Ao lado dela, duas crianças gritavam desesperadas: “Mamãe! Mamãe!”.

Testemunhas contaram à polícia que Letícia tentou pedir ajuda por telefone pouco antes de ser morta. O autor teria acelerado o veículo em sua direção, atingindo-a violentamente. Após o atropelamento, ele desceu do carro, chamou pela vítima e entrou em casa sem prestar socorro.
A mãe do acusado relatou à polícia que o casal mantinha um relacionamento conturbado, com brigas frequentes. Em um dos episódios anteriores, ela mesma teria segurado o volante do carro para evitar que o filho causasse um acidente durante uma discussão com Letícia.
As 35 vítimas de feminicídio em MS
- Karina Corim – Caarapó
- Vanessa Ricarte – Campo Grande
- Juliana Domingues – Dourados
- Miriele da Silva Santos – Água Clara
- Emiliana Mendes – Juti
- Giseli Cristina Oliskowiski – Campo Grande
- Alessandra da Silva Arruda – Nioaque
- Ivone Barbosa da Costa Nantes – Sidrolândia
- Thacia Paula Ramos de Souza – Cassilândia
- Simone da Silva – Itaquiraí
- Graciane de Sousa Silva – Angélica
- Olizandra Vera Cano – Coronel Sapucaia
- Sophie Eugenia Borges de Medeiros – Campo Grande
- Vanessa Eugenia Medeiros – Campo Grande
- Eliana Guanes – Corumbá
- Dayane de Souza Garcia – Nova Alvorada do Sul
- Doralice da Silva – Maracaju
- Rose Antonia de Paula – Costa Rica
- Michely Rios Midon Orue – Glória de Dourados
- Juliete Vieira – Naviraí
- Cinira de Brito – Ribas do Rio Pardo
- Salvadora Pereira – Corumbá
- Dahiana Ferreira Bobadilla – Bela Vista
- Érica Regina Moreira Mota – Bataguassu
- Iracema Rosa da Silva Santos – Dois Irmãos do Buriti
- Ana Taniely Gonzaga de Lima – Bela Vista
- Gisele da Silva Cylis Saochine – Campo Grande
- Erivelte Barbosa Lima de Souza – Paranaíba
- Andreia Ferreira – Bandeirantes
- Solene Aparecida Corrêa – Três Lagoas
- Luana Cristina Ferreira Alves – Campo Grande
- Aline Silva – Jardim
- Mara Aparecida do Nascimento Gonçalves – Aparecida do Taboado
- Irailde Vieira Flores de Oliveira – Rochedo
- Rosimeire Vieira de Oliveira – Rochedo
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