Imagem gerada por IA
Olhando a imagem que circula intensamente nas redes sociais, me despertou a seguinte reflexão…
Ela é um exemplo poderoso de como a Inteligência Artificial pode ser usada para materializar metáforas complexas e nos ajudar a refeletir sobre muitas questões da chamada vida real. Que, embora pareça uma escultura de bronze real em uma praça pública, trata-se de uma representação digital que toca em uma ferida aberta da sociedade: a sobrecarga feminina.
Ela apresenta uma releitura moderna do Mito de Atlas, que, ao invés de carregar o globo terrestre, esta mulher carrega o mundo doméstico e emocional. A estátua é um retrato visceral da “dupla, e muitas vezes, até tripla jornada” e da carga mental que define a existência de bilhões de mulheres.
O que torna a imagem impactante é a especificidade dos objetos. Não são pedras brutas, mas sim: Máquinas de lavar e baldes, que representam o trabalho operacional infinito e não remunerado. As vassouras e utensílios, que simbolizam a manutenção da ordem que, muitas vezes, é invisível até que deixe de ser feita.
Já a postura curvada, reflete que o corpo da mulher não está em uma pose heroica; ele está cedendo. A coluna arqueada mostra que o peso não é um desafio a ser vencido, mas uma condição que a esmaga diariamente.
A presença das filhas ao redor da figura central adiciona uma camada de melancolia e urgência. Elas observam a mãe, o que sugere a transmissão intergeracional do sacrifício. A imagem nos leva a um questionamento:
“Será que as próximas gerações estão sendo preparadas para herdar o mesmo peso ou para ajudar a construir uma estrutura onde esse fardo seja compartilhado?”
Sociedades modernas costumam romantizar a “mulher guerreira” ou a “supermulher”. Só que, a imagem nos lembra que por trás de toda mulher que “dá conta de tudo”, existe um cansaço extremo e sistêmico.
Além de carregar o objeto físico, existe o peso de lembrar o que precisa ser feito, o horário do remédio dos filhos, o estoque da despensa e o bem-estar emocional de todos ao redor.
Note que a figura está sozinha sob o peso. Não há outras figuras adultas dividindo o fardo. Isso reflete a realidade de muitas mães solo e mulheres que, mesmo em relacionamentos, vivem a solidão da responsabilidade doméstica.
“A carga mental é o trabalho de notar o que precisa ser feito, e essa é a parte que nunca termina”.
(Cartunista francesa Emma em sua famosa história em quadrinhos de 2017, intitulada “O peso invisível”)
Embora a estátua não exista fisicamente, ela cumpre o papel fundamental da arte: provocar o pensamento. Ela serve como um espelho para que a sociedade reconheça que o bem-estar da civilização tem sido construído, por séculos, sobre a exaustão feminina.
A verdadeira evolução não virá de máquinas de lavar mais modernas ou algoritmos de IA mais precisos, mas sim de uma reestruturação social onde o “peso do mundo” seja distribuído de forma justa entre ambos os gêneros.
Olga Cruz





