Por algum tempo cultivei o sonho de formar uma cooperativa de mulheres, pois em minhas andanças pelas comunidades percebo que as pequenas empreendedoras e aquelas que se apegam em vender alguma coisa como forma de sustentar seus filhos, ou seja, o empreendedorismo de sobrevivência, tem muita dificuldade de progredir e se consolidar.
E no caso de violência doméstica, com o qual convivo diariamente, um dos maiores empecilhos para essa vitima sair da situação é a dependência financeira, e ainda acredito que seria uma forma de criar condições para essas mulheres se ajudarem mutuamente e crescer com mais estabilidade.
Buscando o conceito, podemos resumir que se trata de uma associação de pessoas, normalmente com meios limitados, que se unem voluntariamente para alcançar um objetivo econômico comum, formando uma organização empresarial controlada democraticamente e que faz contribuições equitativas ao capital necessário, aceitando uma parcela de riscos e benefícios.
Cabe aqui ressaltar que é um sistema que muito evoluiu, até por conta daquelas que deram certo e porque favorece a organização do trabalho aliado a inúmeras vantagens.
Contudo, deixando de sonhar e colocando o pé no chão, vejo que existem muitos percalços e, portanto, não está livre de problemas, requerendo atenção em alguns pontos que vamos compartilhar com vocês, apenas para reflexão ou norte para aprofundar no assunto.
Organização: A formação de uma organização cooperativa é simples se comparada à de qualquer outra organização empresarial. Não limita quantidade de pessoas, o processo de registro é simples e também não restringe a entrada e saída de membros. Na maioria dos casos, o passivo dos membros é limitado à extensão de capital por eles contribuídos, aliviando a preocupação de comprometer sua propriedade privada em caso de perdas financeiras da sociedade. Porém, cabe lembrar que embora o patrimônio pessoal fique protegido, os cooperados podem arcar coletivamente com eventuais perdas financeiras da entidade.
Desenvolvimento da comunidade local: As cooperativas têm como um dos seus princípios o interesse pela comunidade, por isso vão além de um modelo de negócio tradicional e permitem com que as pessoas envolvidas contribuam para fomentar ações sustentáveis, além de que, os cooperados podem adquirir insumos com preços mais atrativos, aumentando assim a produção ou prestação de serviços e, consequentemente, estabelecendo competitividade no mercado.
Estabilidade e continuidade: A organização não pode ser dissolvida por insolvência de morte ou incapacidade permanente dos membros, portanto, tem uma vida estável e continua existindo por um longo tempo, uma vez que sua existência legal é individualizada. Membros novos podem entrar e os antigos sair, sem interromper o seu funcionamento, exceto, no caso de encerramento consensual e unânime dos membros.
Gestão democrática: É administrada por membros eleitos entre si, resguardado direitos iguais por meio de voto único, e podem participar ativamente na formulação das suas políticas.
Operações econômicas: Os serviços intermediários são fornecidos pelos membros com um custo mínimo, vez que as despesas recorrentes e não recorrentes são muito menores, os bens e serviços são melhores e mais baratos. Normalmente fornece ajuda financeira e auxilia na produção e comercialização de produtos, sendo que o lucro é utilizado para atender os custos administrativos.
Patrocínio estatal: O governo presta assistência especial às cooperativas, emprestando dinheiro a taxas mais baixas, permitindo que elas alcancem seus objetivos, além de estender subsídios, fortalecendo a estabilidade financeira e crescimento sustentável.
No entanto, não são apenas vantagens, temos também as desvantagens ou pontos fracos:
Gerenciamento: Uma cooperativa é gerenciada apenas pelos seus membros, que nem sempre tem expertise administrativa e habilidades de gestão habilidades para a gestão, e esta ineficiência, a lentidão e burocracia na tomada de decisões tem sido alguns dos fatores de insucesso de grandes ideias e organizações cooperativas.
Recursos limitados: A solidez financeira das cooperativas depende do limite de contribuição dos membros e da sua capacidade de captação de empréstimos dos bancos cooperativos do governo. A maioria dos membros pertencem às classes médias e baixas e a taxa de associação é limitada, restringindo, quantidade de produtos, os recursos disponíveis e os negócios em larga escala, que requerem capital maior.
Interferência excessiva do governo: Geralmente em sua grande maioria existem pessoas do governo no conselho de administração que influenciam as decisões, bem sempre favorável ao interesse dos membros e da organização, com interferência na flexibilidade da operação eficiência da gestão.
Falta de sigilo e diversidade de membros: Todos os assuntos são discutidos abertamente nas reuniões, e bem sabemos que o sigilo é um dos aspectos importantes para o sucesso dos negócios e no comércio, em especial para a concorrência. Outro fator crítico é a diversidade de membros e da direção que inclui pessoas de diferentes contextos sociais, acadêmicos e econômicos, motivando opiniões divergentes em certas questões, cujas disputas podem enfraquecer o interesse da cooperativa e paralisar a eficácia da sua gestão.
Porém refletindo para o lado da comunidade e com uma visão mais social, é importante salientar que as taxas administrativas. Juros em empréstimos e tarifas praticadas costumam ser mais justas, uma vez que o foco não é o lucro.
Essa divisão de resultados, a sobra ou possível lucro é dividido entre os cooperados, proporcionalmente ao uso que fazem da cooperativa e o capital gerado é reinvestido na própria comunidade, fortalecendo a economia regional. Encerrando essas reflexões, concluo que meu sonho que estava esquecido numa gaveta, vai continuar lá, posto que com o incentivo ao MEI em que todas as mulheres que querem empreender têm acesso, inclusive a benefícios, difícil implementar uma cooperativa de pequenas e fragilizadas nesse Brasil capitalista, gestão insegura, incentivo reduzido e de cargas tributárias onerosas.
Vamos em frente, deixando o sonho e vivendo a realidade, incentivando o empreendedorismo feminino, mesmo que através do MEI, plantando tâmaras em solo fértil, no caminho do sol e sem medo de ser feliz!
Dra. Iacita Azamor Pionti – Advogada e Coordenadora Municipal da Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande-MS





