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Do benefício ao primeiro emprego: desafio em MS agora é fazer o trabalho render mais

Com desemprego em nível historicamente baixo, qualificação profissional e industrialização ganham peso na busca por salários maiores e novas oportunidades

Claudineia da Silva ainda não terminou de construir o futuro que imagina para si. Moradora de Jardim, ela sonha cursar Pedagogia e se tornar professora. Mas, para chegar até esse sonho, precisou percorrer um caminho que começou quando ainda não havia concluído o ensino médio e dependia de um programa de transferência de renda.

Na época, o benefício ainda se chamava Vale Renda. Depois, transformou-se no Mais Social. Enquanto recebia o auxílio, Claudineia voltou a estudar, terminou o ensino médio e buscou cursos que pudessem abrir outras possibilidades de renda.

“Fiz cursos na área da beleza como cabeleireira e manicure, eram cursos que eu sonhava ter e foram me ajudando com renda”, conta.

Ela continuou estudando. Fez também formação em Inclusão e Educação Infantil, de olho na possibilidade de trabalhar em creches. A oportunidade apareceu em uma escola.

“Vi que já podia ter minha própria renda, foi quando devolvi o cartão. O benefício esteve comigo nos momentos mais desafiantes e tenho certeza que pode ajudar muitas outras famílias também.”

Agora, Claudineia olha para o próximo degrau.

“Ainda tenho muitos planos pela frente e sei que vai acontecer. Sonho em cursar Pedagogia. Um dia serei professora.”

A história ajuda a dar rosto a um desafio que começa a ganhar outra dimensão em Mato Grosso do Sul. Depois de reduzir o desemprego e ampliar o número de trabalhadores com carteira assinada, o Estado precisa avançar sobre uma questão mais difícil: não apenas criar vagas, mas permitir que o trabalho resulte em renda maior, estabilidade e possibilidade de crescimento profissional.

No quarto trimestre de 2025, a taxa de desocupação em Mato Grosso do Sul caiu para 2,4%, o menor resultado da série histórica estadual e o segundo menor entre as unidades da Federação. O rendimento médio real do trabalho principal chegou a R$ 3.581, R$ 99 acima do trimestre anterior.

O cenário, porém, não é uniforme. Ao mesmo tempo em que o desemprego caiu, 30,8% dos trabalhadores permaneciam na informalidade.

É nesse ponto que a experiência de Claudineia se encontra com uma questão mais ampla. Para parte da população, conseguir uma ocupação é apenas o começo. A possibilidade de estudar, adquirir uma profissão, conquistar um emprego melhor ou avançar dentro da carreira pode determinar se o trabalhador continuará apenas pagando as contas ou conseguirá construir alguma segurança para o futuro.

“Para essa parcela da população, o problema não é apenas conseguir emprego. É transformar o trabalho em renda suficiente para pagar as contas, cuidar da família e construir segurança para o futuro”, afirma o governador Eduardo Riedel, do Progressistas, candidato à reeleição.

Quase 20 mil novos empregos formais

Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com saldo positivo de 19.756 empregos formais, resultado de 419.472 admissões e 399.716 desligamentos. O Estado chegou a 689.951 vínculos com carteira assinada, crescimento de 2,91% em relação ao ano anterior.

A geração de vagas alcançou diferentes setores da economia.

A construção liderou, com 5.873 novos postos. Na sequência vieram serviços, com 4.835; indústria, com 4.536; comércio, com 3.258; e agropecuária, com 1.256.

O crescimento, no entanto, produz uma nova demanda. Parte das oportunidades abertas por indústrias e empresas exige trabalhadores preparados para funções técnicas e especializadas, enquanto empresas encontram dificuldades para preencher determinados postos.

O resultado é um paradoxo: há trabalhadores procurando oportunidade de melhorar de vida e, ao mesmo tempo, vagas que exigem uma formação que nem sempre está disponível para quem vive na região onde os investimentos chegam.

Qualificar quem já está trabalhando

O tamanho desse desafio aparece no Mapa do Trabalho Industrial. A estimativa é que Mato Grosso do Sul precise qualificar 207 mil profissionais entre 2025 e 2027.

A maior parte deles não está entrando agora no mercado. Dos profissionais que precisarão de formação, cerca de 31 mil serão novos trabalhadores. Outros 176 mil já estão trabalhando e precisarão de aperfeiçoamento ou requalificação.

Isso significa que a política de formação profissional precisa alcançar também quem já tem emprego, jornada definida e responsabilidades familiares.

Para esse trabalhador, não basta que o curso exista. Ele precisa caber na rotina, ser acessível e, principalmente, estar relacionado às oportunidades existentes na região. Uma formação desconectada da economia local pode produzir um certificado sem necessariamente produzir aumento de renda ou progressão profissional.

Em 2025, o Senai ofereceu 1.640 vagas em cursos técnicos no primeiro semestre e outras 1.450 no segundo, distribuídas por mais de 15 municípios. As formações incluíram áreas como automação industrial, eletrotécnica, mecânica, biocombustíveis, química, logística, segurança do trabalho e papel e celulose.

Em Campo Grande, o Pronto pro Trabalho anunciou mais de 10 mil vagas gratuitas em aproximadamente 40 cursos, incluindo ofertas nos bairros para facilitar o acesso de quem encontra dificuldades de deslocamento.

Formação para acompanhar a industrialização

A qualificação também está diretamente relacionada à transformação da economia sul-mato-grossense.

Mato Grosso do Sul continua tendo no agronegócio uma de suas bases econômicas, mas vem ampliando a transformação da própria produção em áreas como celulose, biocombustíveis, alimentos e energia.

A chegada desses investimentos abre espaço para ocupações técnicas em automação, química, segurança do trabalho, logística, manutenção e outras áreas especializadas.

Para o trabalhador local, porém, existe uma questão decisiva: estar preparado antes que essas vagas sejam abertas.

Quando uma nova indústria começa a funcionar sem encontrar profissionais qualificados na própria região, parte das funções mais especializadas pode acabar ocupada por trabalhadores vindos de outros lugares. O município recebe o investimento, mas uma parcela da renda gerada deixa de circular entre as famílias locais.

É nessa ligação entre investimento e formação profissional que o Governo de Mato Grosso do Sul pretende concentrar parte de sua estratégia.

“Não basta receber a indústria. É necessário mapear as funções exigidas, formar moradores e permitir que jovens e trabalhadores locais disputem os empregos de maior valor”, afirma Riedel.

O Governo estadual tem ampliado a oferta gratuita de qualificação por meio da Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul (Funtrab) e do MS Qualifica, em parceria com instituições de ensino e o setor produtivo.

Segundo a diretora-presidente da Funtrab, Marina Dobashi, os cursos são definidos a partir das necessidades das empresas, com prioridade para áreas como indústria, construção civil, logística, tecnologia, mecânica, eletricidade, operação de máquinas e serviços.

“O mercado de trabalho está em constante transformação. A qualificação profissional deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade. Nosso compromisso é preparar os trabalhadores para as profissões do presente e, principalmente, para as oportunidades que continuarão surgindo com os novos investimentos em Mato Grosso do Sul”, afirma.

Da proteção social para a oportunidade

O MS Qualifica reúne ações de formação, empregabilidade e empreendedorismo e articula Governo do Estado, Funtrab, empresas e entidades do Sistema S. A plataforma digital do programa, lançada em maio de 2025, procura aproximar trabalhadores, cursos e demandas do mercado.

No mesmo ano, o Voucher Qualificação recebeu investimento de quase R$ 3 milhões do Fundo Estadual do Trabalho para cursos voltados ao comércio e à indústria. Para 2026, a política estadual teve previsão orçamentária de R$ 8,68 milhões.

Essa estratégia também alcança pessoas atendidas por programas sociais. Quase 900 beneficiários do Mais Social haviam participado de cursos do MS Qualifica, buscando conectar proteção social, formação, emprego e empreendedorismo.

A experiência de Claudineia mostra o que essa transição pode significar quando chega à vida de uma pessoa: o benefício ajudou durante um período de dificuldade, enquanto a conclusão dos estudos e a qualificação abriram o caminho para que ela conquistasse renda própria.

Mas a quantidade de cursos e vagas oferecidas não basta para medir o sucesso da política.

O desafio será acompanhar quantos alunos concluem as formações, quantos conseguem emprego na área estudada, quantos conquistam promoção e quantos efetivamente aumentam a renda. Sem esse acompanhamento, é possível saber quantas vagas foram abertas, mas não em que medida a qualificação produziu mobilidade profissional.

Do emprego para uma perspectiva de futuro

Mato Grosso do Sul chegou a um cenário em que o baixo desemprego muda a natureza do problema.

A pergunta já não é apenas quantas pessoas conseguem trabalhar, mas quais empregos estão sendo criados, quanto eles pagam e que possibilidade oferecem para que o trabalhador avance profissionalmente.

A resposta passa pela combinação entre a chegada de empresas capazes de gerar funções de maior produtividade, a oferta de cursos conectados às demandas de cada região e condições para que quem já trabalha consiga continuar estudando.

Para Riedel, essas duas pontas precisam caminhar juntas: de um lado estão os investimentos, as indústrias e as vagas; do outro, os trabalhadores que precisam estar preparados para ocupá-las.

“Ter emprego é o primeiro degrau. O desafio agora é garantir que o trabalho também ofereça futuro”, afirma.

Para Claudineia, esse futuro ainda tem nome: Pedagogia.

Depois de concluir o ensino médio, buscar formação, conquistar o primeiro emprego e devolver o cartão do programa social, ela ainda guarda um projeto que não terminou.

“Um dia serei professora.”

Assessoria

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