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O poder não bastou: Lula recebe o recado das urnas

Imagem gerada por IA

Por Olga Cruz

Lula entrou nesta eleição falando, e aparentemente acreditando, em vitória no primeiro turno. A urna, essa criatura inconveniente que às vezes se recusa a colaborar com as expectativas do poder, resolveu contar outra história:

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente.

Pode-se discutir a diferença, interpretar os números, projetar transferências de votos e construir todas as narrativas possíveis para o dia 25 de outubro. Uma coisa, porém, já aconteceu e não pode ser ‘desacontecida’: o presidente da República, candidato à reeleição, terminou atrás de seu principal adversário.

E isso tem um peso político de grandes proporções!

Flávio chegou ao segundo turno com cerca de 47% dos votos válidos, contra aproximadamente 45% de Lula, abrindo vantagem superior a dois milhões de votos. Mais importante que a matemática, neste momento, é o simbolismo: Lula disputou a eleição sentado na cadeira mais poderosa da República e, ainda assim, não conseguiu chegar em primeiro.

Não lhe faltou estrutura. Não lhe faltou exposição. Não lhe faltaram ministros, aliados, grande mídia, programas, anúncios, agendas oficiais e toda a visibilidade que acompanha naturalmente quem ocupa o Palácio do Planalto.

Faltou voto suficiente para terminar o primeiro turno das eleições na frente.

E política, no fim das contas, ainda tem esse pequeno inconveniente.

Na minha leitura, Lula também atravessou esses quase quatro anos contando com uma tolerância de parte expressiva da grande imprensa que dificilmente seria concedida, na mesma intensidade, a um governo situado no campo da direita.

É uma percepção minha, naturalmente, e o leitor pode discordar. Mas considero curioso como os inúmeros problemas fiscais, gastanças do erário público, denúncias, suspeitas e controvérsias parecem ganhar pesos diferentes dependendo da legenda que ocupa a cadeira presidencial.

Também considero impossível ignorar a relação política que se estabeleceu nos últimos anos entre o lulismo e decisões tomadas por setores do Supremo Tribunal Federal.

Evidentemente, ministros do STF não são subordinados ao presidente que os indicou, e uma indicação constitucional não comprova alinhamento partidário. Mas independência institucional não significa imunidade à crítica. Quando decisões judiciais produzem consequências políticas, elas também precisam suportar o escrutínio público.

Aliás, no último domingo (4), William Waack foi muito mais longe nessa análise.

Ao comentar o resultado do primeiro turno, classificou o que aconteceu como uma “bomba eleitoral” e afirmou que Lula parte para a segunda etapa em inferioridade numérica, pressionado pela rejeição, pela desaprovação de seu terceiro mandato e pela formação de uma ampla maioria de centro-direita no Legislativo. Para Waack, o resultado pode representar inclusive o encerramento de um longo ciclo político brasileiro.

Uma aposentadoria de Lula do poder.

Pode-se concordar ou não com a dimensão que ele atribui ao fenômeno. Mas é difícil olhar para o mapa eleitoral e fingir que nada aconteceu.

Porque aconteceu sim.

E não aconteceu apenas na disputa presidencial.

A direita avançou no Congresso, especialmente no Senado. O desempenho de candidaturas conservadoras em diferentes estados mostrou que o fenômeno não se resume à família Bolsonaro nem pode ser explicado apenas pela fidelidade do eleitor bolsonarista.

Há algo maior acontecendo.

Talvez esteja aí uma das leituras mais importantes deste primeiro turno: nem todo voto em Flávio Bolsonaro é necessariamente um voto de paixão por Flávio Bolsonaro. Uma parcela pode ser simplesmente um voto de rejeição a Lula e ao PT.

E isso deveria preocupar ainda mais o governo.

Quando o eleitor vota apaixonadamente em alguém, existe identificação. Quando vota principalmente para impedir que outro permaneça no poder, existe o desgaste.

Não temos como medir apenas pelo resultado eleitoral quantos dos mais de 56 milhões de votos recebidos por Flávio pertencem a uma categoria ou à outra. Mas ignorar o componente antilulista seria ingenuidade política.

Até porque a eleição para o Senado ofereceu outro sinal.

O PL ampliou significativamente sua força na Casa, enquanto nomes ligados ao governo e à esquerda sofreram derrotas importantes. Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso, não conseguiu a reeleição no Amapá. No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis conquistaram as duas vagas. No Rio Grande do Sul, Marcel van Hattem e Sanderson venceram as disputas.

Em Mato Grosso do Sul, o recado foi igualmente claro: Reinaldo Azambuja e Capitão Contar, ambos do PL, conquistaram as duas cadeiras em disputa para o Senado.

Podem chamar de onda conservadora, reorganização da direita, voto antipetista ou simplesmente vontade de mudança. O nome é secundário. O fato político é que a direita saiu fortalecida das urnas.

E Lula, não.

Na véspera da eleição, havia pesquisas apontando Lula numericamente à frente de Flávio. O Datafolha, por exemplo, mostrava o presidente com 45% dos votos válidos e Flávio com 42%, embora em empate técnico. Quando os votos reais foram contados, a ordem apareceu invertida.

Talvez seja uma boa ocasião para lembrar que pesquisa mede a intenção.

Urna mede o voto!

Agora começa outra eleição.

Lula ainda tem enorme força política, uma base eleitoral consolidada e chega competitivo ao segundo turno. Seria precipitado decretar sua derrota antes de 25 de outubro.

Mas também seria intelectualmente desonesto tratar o primeiro turno como um tropeço irrelevante.

O presidente sai ferido. Flávio sai fortalecido.

E a economia provavelmente ocupará o centro dessa disputa. Para milhões de brasileiros, pouco importa a solenidade dos discursos sobre indicadores econômicos quando a experiência concreta está no supermercado, no cartão de crédito, no financiamento, no imposto e no orçamento doméstico.

É nesse terreno que Flávio terá de provar que consegue ir além do antipetismo. Prometer redução de impostos, responsabilidade fiscal e juros menores é politicamente atraente. Explicar como fazer isso sem produzir desequilíbrios é a parte difícil, e é justamente essa resposta que o eleitor deve exigir.

O mesmo vale para corrupção. Não importa a sigla. Dinheiro público não pertence a governo, partido ou político. Pertence ao cidadão. Investigações precisam acontecer, responsabilidades precisam ser apuradas e culpados precisam responder.

Flávio também afirmou que, caso seja eleito, não pretende disputar a reeleição. É um compromisso politicamente relevante e, se chegar ao Planalto, deverá ser lembrado dele.

O segundo turno está aberto. Lula pode reagir. Flávio pode errar. Alianças serão refeitas, votos serão disputados e três semanas, em política, são tempo suficiente para muita coisa acontecer.

Mas o primeiro turno deixou uma fotografia impossível de esconder.

Lula tinha a Presidência. Tinha a máquina política. Tinha ministros. Tinha aliados. Tinha exposição. Tinha quatro anos de governo para apresentar ao eleitor.

Só não teve mais votos que Flávio Bolsonaro.

E talvez esse seja o sarcasmo mais poderoso desta eleição: não foi necessário inventá-lo.

As urnas escreveram sozinhas.

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