MS Delas

Search
Close this search box.
23°C

O desespero de Lula e a fábrica de fake news para tentar barrar a corrida de Flávio à Presidência

Entre decisões do TSE, ataques nas redes e o discurso de combate à desinformação, a disputa pelo poder expõe contradições da política brasileira

Por Olga Cruz

A reta final da disputa presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) trouxe novamente ao centro do debate um velho expediente da política brasileira: explorar o medo do eleitor para enfraquecer o adversário. A sucessão de publicações contra Flávio Bolsonaro, algumas já alcançadas por decisões da Justiça Eleitoral, levanta uma questão incômoda para a esquerda: como sustentar o discurso de combate às fake news quando integrantes do próprio campo político divulgam afirmações sem comprovação?

O episódio mais recente ocorreu na última quinta-feira (8), quando o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a retirada de um vídeo dos deputados André Janones (Rede-MG) e Lindbergh Farias (PT-RJ). Na gravação, os parlamentares atribuíam a Flávio propostas como elevar a idade mínima para aposentadoria, desvincular benefícios previdenciários do salário mínimo, impor jornadas de 12 horas diárias e privatizar a Petrobrás.

Segundo a decisão, as afirmações não encontravam respaldo suficiente nos elementos disponíveis. A Justiça Eleitoral também determinou a remoção de publicações dos perfis de Lula e da primeira-dama Janja relacionadas a supostos cortes em programas sociais. Em um dos vídeos, Flávio bolsonaro aparece “falando” que vai cortar os programas. Na imagem um tanto tosca, ficou evidente o uso de recursos de IA, ou seja, uma fake news.

Não se trata de impedir críticas a propostas econômicas. O debate sobre ajuste fiscal, aposentadorias e políticas públicas é legítimo. O problema começa quando projeções são apresentadas como decisões já tomadas, especialmente em temas sensíveis para milhões de brasileiros.

Essa estratégia de comunicação não surgiu agora. No primeiro turno, uma informação falsa afirmava que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. O episódio demonstrou como até mesmo a fé pode ser envolvida em narrativas eleitorais sem fundamento.

Agora, a preocupação com aposentadorias, medicamentos e programas sociais ocupa o centro das mensagens. Publicações sugerem o fim da Farmácia Popular e associam propostas de contenção de despesas a cortes específicos ainda não demonstrados. Pelo contrário, Flávio Bolsonaro afirma que é mentira que pretenda extinguir o programa e afirma que preservará todos os benefícios sociais.

A ofensiva digital também ganhou escala com a mobilização de influenciadores e redes de apoiadores. André Janones passou a articular o chamado “Exército do Lula”, enquanto reportagens revelaram pagamentos do governo federal a criadores de conteúdo para campanhas institucionais.

Esses contratos não comprovam financiamento de desinformação eleitoral, mas reforçam a importância da transparência sobre a origem e a finalidade dos recursos utilizados na comunicação política.

O ponto central é a coerência. Quem defende regras rigorosas contra a desinformação precisa aceitar que elas também alcancem seus próprios aliados. A verdade não muda de natureza conforme a legenda partidária de quem publica.

A exigência vale igualmente para a direita. O próprio TSE também determinou a retirada de publicações antigas de Flávio Bolsonaro. Combater informações falsas não pode ser um instrumento seletivo, acionado apenas quando interessa politicamente.

Nesse cenário, uma declaração de José Dirceu, feita durante a eleição de 2018, volta a provocar reflexão. Questionado pelo jornal El País sobre a hipótese de o PT vencer a eleição e ser impedido de assumir o governo, o ex-ministro falou em “tomar o poder”, diferenciando essa situação de ganhar uma eleição. Posteriormente, reconheceu que a declaração havia sido infeliz e explicou que se referia à possibilidade de um golpe.

Não seria correto transformar aquela fala, feita em circunstâncias específicas, em prova de uma estratégia eleitoral atual. Mas ela permite refletir sobre o peso das palavras e sobre a relação entre a conquista do poder e o respeito às regras democráticas.

O temor de uma derrota pode ajudar a explicar o endurecimento do discurso de qualquer campanha. Mas, atribuir a esse medo a intenção deliberada de produzir desinformação exige provas. O que já se pode afirmar é que decisões recentes da Justiça Eleitoral identificaram limites ultrapassados na apresentação de acusações contra adversários.

A democracia admite confronto, divergência e críticas severas. O que ela não pode normalizar é a substituição dos fatos por versões fabricadas para provocar medo.

A eleição de 25 de outubro pertence ao eleitor, não aos estrategistas das redes sociais. E há uma diferença que nenhuma campanha deveria esquecer: disputar o poder é legítimo; distorcer a realidade para conquistá-lo compromete a própria democracia.

Porque, quando a verdade se torna inconveniente para quem deseja o poder, o primeiro derrotado não é o adversário. É o eleitor!

*Imagem gerada por IA

Você também pode gostar...