Entre provocações, tropeços e o tesouraço nos privilégios do poder, primeiro confronto do segundo turno expôs o nervosismo do presidente e a estratégia de Flávio Bolsonaro para conquistar os indecisos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mal havia começado o primeiro debate do segundo turno, realizado pela Band na noite de domingo (18), e já tinha diante de si uma cena politicamente indigesta. Na primeira fila estavam Sergio Moro e Deltan Dallagnol, protagonistas da Operação Lava Jato. Deltan, para tornar a recepção ainda mais calorosa, vestia uma camiseta com a frase: “Eu prendi o Lula e o STF soltou”.
Era praticamente um comitê de boas-vindas organizado pelos fantasmas do passado.
Flávio Bolsonaro não perdeu a oportunidade de explorar a presença dos dois. Em uma das provocações da noite, disparou contra o presidente: “Sabe quantas pessoas aqui foram presas por corrupção e lavagem de dinheiro? Só você.” Em seguida, mencionou os antigos integrantes da Lava Jato que estavam na plateia.

A referência era às condenações de Lula, posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal. A provocação, porém, mostrou como o passado judicial do presidente continua presente na disputa política.
Lula demonstrou irritação em diferentes momentos do confronto, tropeçou em palavras e reagiu às investidas do adversário. Não é possível afirmar que a presença de Moro e Deltan tenha provocado esse comportamento, mas a composição da plateia certamente acrescentou simbolismo ao embate.
Do outro lado, Flávio entrou disposto a confrontar o presidente, explorar as fragilidades da administração petista e disputar a narrativa de uma eleição extremamente acirrada.
O tesouraço que começou pelo Palácio do Planalto
Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando Lula questionou Flávio sobre sua proposta de cortar despesas públicas. Queria saber onde o senador pretende passar a tesoura, perguntando diretamente:
“O tesouraço vai cair nas costas de quem?”.
Em resposta, Flávio Bolsonaro rebateu de forma incisiva, dizendo que o corte cairia nas costas do próprio presidente:
“Na sua, nos seus privilégios, nas suas viagens com a Janja. Nos R$ 7 bilhões que você já gastou com a Janja. Eu vou tirar dele, da Janja e vou dar para você [população].”
Flávio devolveu a provocação mirando o próprio presidente e a primeira-dama Janja. Defendeu a redução de privilégios e gastos da estrutura governamental, apresentando a economia como caminho para direcionar mais recursos às necessidades da população.
A pergunta pretendia colocar o senador contra a parede. A resposta transformou o próprio governo em alvo.
Entre a Lava Jato e os tropeços presidenciais
Flávio também explorou acusações de corrupção, o escândalo do INSS e suspeitas envolvendo Lulinha, filho do presidente. Lula rebateu, negou proteger o filho e devolveu questionamentos sobre investigações relacionadas à família Bolsonaro.
As condenações de Lula na Lava Jato foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal. Mas a memória política da operação continua sendo explorada por seus adversários.
O clima esquentou ainda mais quando Flávio passou a circular pelo estúdio, fazendo gestos enquanto Lula falava. O presidente reclamou com a mediação. Em outro momento, chamou o senador de “malandro carioca” e associou a família Bolsonaro às milícias. Flávio respondeu com uma ironia sobre o risco de ter a carteira roubada.
A expressão “malandro carioca” entrou entre os assuntos mais comentados no X após o presidente usar o termo para se referir ao senador Flávio Bolsonaro durante o debate da Band.
“Você vê que essa carinha boa dele é a carinha do mentiroso contumaz, é o malandro carioca, que finge que não finge e mente descaradamente”, afirmou Lula durante bloco de perguntas dos jornalistas.
Depois, Flávio Bolsonaro aproveitou a declaração para se dirigir aos eleitores do Rio de Janeiro.
“Quero me solidarizar com meus irmãos e irmãs do Rio de Janeiro, que foram aqui chamados de ‘malandros’ pelo meu concorrente”, disse.
O senador afirmou que Lula trata dessa forma as pessoas que preferem a mudança, em referência à vantagem dele na capital. Foram 47,88% dos votos válidos, ante 43,91% de Lula.
Sobre o risco da certeira ser roubada
Em meio à troca de provocações, Flávio pediu que Lula ficasse mais perto, reeditando uma cena do debate da Globo que o petista travou com Jair Bolsonaro em 2022. O presidente respondeu que não queria ficar próximo ao senador, chamando o adversário de miliciano. Na tréplica, Flávio sugeriu que Lula era ladrão.
“Fica do meu lado. Vamos conversar juntos”, disse Flávio.
“Não quero ficar perto de você. Família Bolsonaro, quero distância. Quero distância de miliciano”, respondeu Lula.
“Estou sem a carteira aqui, fica tranquilo. Pensando bem, é melhor ficar longe, mesmo, que minha carteira pode ser roubada”, ironizou Flávio.
Nas considerações finais, Lula ainda protagonizou uma gafe ao afirmar que “o Brasil vai acabar”, quando pretendia dizer que o País deixaria de ser subdesenvolvido.

Flávio aposta na prosperidade e mira os indecisos
Para além das provocações, Flávio Bolsonaro procurou apresentar uma mensagem voltada à prosperidade, à segurança pública, à redução do custo de vida e às oportunidades econômicas.
A estratégia é clara: ampliar seu alcance entre os eleitores que ainda não decidiram o voto. Quem já está convencido dificilmente mudará de candidato por causa de um debate. A disputa decisiva está entre aqueles que cobram resultados e procuram perspectivas melhores para o futuro.
Lula insistiu no legado de seus governos e nas críticas à administração de Jair Bolsonaro. Mas o eleitor também quer respostas para os problemas atuais. Afinal, lembranças de tempos melhores não pagam as contas do supermercado.
Flávio encontrou espaço para explorar essa contradição.
O peso do poder e o julgamento das urnas
O primeiro debate não definiu a eleição, mas deixou imagens politicamente expressivas: Lula diante dos personagens da Lava Jato, o presidente cobrando explicações sobre cortes e Flávio transformando a pergunta numa crítica aos privilégios governamentais.
Na minha avaliação, o senador conseguiu impor momentos de desconforto ao presidente e demonstrou habilidade para explorar os pontos sensíveis de seu discurso.
Lula, por sua vez, mostrou que a experiência de décadas na política não garante tranquilidade diante de um adversário disposto a explorar todas as fragilidades de seus anos de governo.
Flávio ainda precisa convencer que suas propostas vão além das frases de impacto. Lula precisa demonstrar que sua experiência e os resultados do governo justificam mais quatro anos no poder.
No próximo domingo, dia 25, não haverá plateia, mediadores ou câmeras escolhendo o melhor ângulo.
Haverá apenas o eleitor diante da urna.
E, dessa vez, quem dará a última resposta será o Brasil!
Olga Cruz





