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A Odisséia e o canto que ainda me seduz

Relendo em tempos de sua nova versão para o cinema, A Odisseia permanece como uma das obras fundamentais da minha formação, com sua narrativa sobre coragem, desejo, escolhas e as consequências de tudo aquilo que nos fascina

Por Rogério Alexandre Zanetti

Sabe aqueles livros que admiramos, que nos ensinam e que, silenciosamente, passam a fazer parte de quem somos? Pois bem, em minha trajetória de leitor, seis obras ocupam esse território afetivo e intelectual muito particular. São eles Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez; A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera; Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski; Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; A Sangue Frio, de Truman Capote; e A Odisseia, de Homero. Bem, há outros incrivelmente bons e importantes, mas sempre que resolvo fazer uma lista, esses aparecem com grande força e impacto.

E não se trata de uma classificação baseada apenas em critérios literários.

É, antes, uma geografia íntima. Cada um desses livros representa uma paisagem, uma idade, uma descoberta e uma transformação que vivi. São obras que me encontraram em momentos diferentes e que, de alguma maneira, ajudaram a construir minha percepção sobre o mundo, sobre os homens e, sobretudo, sobre as contradições da natureza humana.

Entre elas, A Odisseia ocupa um lugar singular.

O livro que me apresentou aos deuses e aos homens

Li A Odisseia pela primeira vez ainda antes de completar 20 anos de idade, no início da vida adulta, quando ainda começava a compreender que os grandes livros não oferecem respostas simples, mas ampliam as perguntas. Esse impacto foi contundente.

A epopeia atribuída a Homero abriu diante de mim as portas de um universo que, até então, eu conhecia apenas de maneira fragmentada. Deuses temperamentais, monstros, feiticeiras, profecias, tempestades, ilhas misteriosas e homens submetidos a provações sobre-humanas passaram a compor uma narrativa intensa, fascinante e profundamente reveladora.

Foi por meio daquela leitura que a mitologia deixou de ser, para mim, apenas uma coleção de histórias fantásticas sobre divindades antigas. Ela se revelou como uma poderosa linguagem criada para interpretar nossos medos, desejos, fraquezas e ambições.

O extraordinário de A Odisseia está justamente no fato de, embora fale de deuses, gigantes e criaturas fabulosas, seu verdadeiro assunto é o ser humano.

Odisseu — ou Ulisses, como se tornou conhecido pela tradição latina — deseja regressar a sua casa, na ilha de Ítaca depois da Guerra de Troia. Quer reencontrar Penélope, seu filho Telêmaco, seu reino e sua própria identidade. A viagem, entretanto, transforma-se em uma sucessão de provações. Cada obstáculo do caminho parece interrogar não apenas sua força, mas sua inteligência, seu caráter e sua capacidade de dominar a si mesmo.

O canto das sereias

Entre as muitas passagens inesquecíveis da obra, nenhuma me impressionou tanto quanto o encontro com as sereias, narrado no Canto XII.

Advertido sobre o perigo, Odisseu sabe que o canto daquelas criaturas exerce uma atração irresistível sobre os navegantes. Quem o escuta perde o domínio sobre a própria vontade, abandona a rota e encontra a morte. Você, se não sabia, já percebeu aqui a origem do ditado popular, ao dizer que alguém caiu no canto da seria.

Para proteger seus companheiros, ele manda que todos cubram os ouvidos com cera. A si mesmo, porém, reserva uma solução diferente, e ordena que o amarrem firmemente ao mastro do navio. Determina ainda que, por mais que suplique ou exija ser libertado, as cordas sejam ainda mais apertadas.

Esse detalhe contém uma das mais profundas lições da epopeia. Odisseu não tapa os próprios ouvidos. Ele deseja ouvir. Quer conhecer aquilo que seduz, fascina e enlouquece os homens. Não foge da tentação, mas cria antecipadamente uma barreira contra as consequências dela.

Há nessa decisão uma combinação extraordinária de coragem e humildade. O herói reconhece a força de sua curiosidade, mas também admite a fragilidade de sua vontade. Sabe que, diante do poderoso canto, certamente deixaria de ser senhor de si. Por isso, toma a decisão enquanto ainda conserva a lucidez. Odisseu não confia cegamente no autocontrole.

Confia nas cordas.

As cordas que nos salvam de nós mesmos

Talvez por isso essa passagem permaneça tão atual. Vivemos cercados por cantos de sereia. Eles estão nas redes sociais, nas promessas fáceis, nos discursos extremistas, no consumo compulsivo e cardápios dos restaurantes, na busca desesperada por reconhecimento e na ilusão de que todos os desejos precisam ser imediatamente satisfeitos.

As novas sereias não habitam ilhas rochosas. Vivem nas telas, nos algoritmos e nas narrativas cuidadosamente construídas para capturar nossa atenção. Prometem prazer, pertencimento, sucesso, poder, dinheiro, certezas absolutas e inimigos convenientes. Como na epopeia, porém, quase nunca revelam antecipadamente o preço da sedução. Ao contrário, enganam antes que você estraçalhe seu barco numa rocha.

A modernidade gosta de celebrar a liberdade como ausência de limites. Homero nos apresenta uma compreensão mais madura, a de quê em determinadas circunstâncias, preservar a liberdade exige aceitar voluntariamente algumas amarras.

As cordas de Odisseu podem ser interpretadas, hoje, como princípios, compromissos, disciplina, responsabilidade, conhecimento, família, amizade e consciência. São os vínculos que estabelecemos antes que a sedução se torne irresistível. São decisões tomadas nos momentos de clareza para nos proteger nos períodos de fraqueza.

O gesto do herói também nos ensina que reconhecer a própria vulnerabilidade não é sinal de fraqueza ou covardia. Ao contrário, é coragem. Fraco não é aquele que admite a possibilidade de sucumbir, mas quem se acredita imune a todas as tentações e, por isso, navega sem proteção.

Odisseu quis ouvir o canto sem entregar a ele o próprio destino. Talvez essa seja uma das maiores demonstrações de sabedoria de toda a literatura, a de que podemos conhecer o abismo sem necessariamente nos lançar dentro dele.

Uma viagem que nunca termina

Reler partes de A Odisseia depois de tantos anos é perceber que o livro mudou porque eu também mudei. Aos 20 anos, eu me encantava com a aventura, os monstros, os deuses e os territórios desconhecidos. Hoje, enxergo com mais nitidez a dimensão humana da viagem, sobre o tempo perdido, a saudade, a fidelidade, o envelhecimento, o desejo de regressar e a dificuldade de reconhecer o lar depois de tantas transformações.

Odisseu volta para Ítaca, mas não é mais o mesmo homem que partiu. Nenhuma verdadeira viagem permite esse retorno intacto. O caminho modifica o viajante, reorganiza suas certezas e atribui novos sentidos àquilo que ele deixou para trás.

Talvez Ítaca não seja apenas um lugar, e sim a parte de nós mesmos à qual tentamos retornar depois de cada batalha, naufrágio ou encantamento.

De Homero a Christopher Nolan

Agora, enquanto me preparo para assistir à adaptação cinematográfica dirigida por Christopher Nolan, atualmente em cartaz, volto a alguns trechos da epopeia.

Não faço essa releitura esperando decidir se o filme será melhor ou pior do que o livro. Essa comparação não me interessa e, a rigor, nem sequer me parece justa. Literatura e cinema são linguagens distintas. Cada uma possui seus recursos, seus silêncios e sua maneira própria de construir o extraordinário.

Volto a Homero como quem regressa a uma antiga paisagem, para reencontrar o jovem de 20 anos que ali começou a perceber que todos os mitos são representações magnificadas de nossas paixões e conflitos.

Antes de entrar na sala escura do cinema, busco o livro não para estabelecer uma competição entre duas obras, mas para resgatar uma das memórias afetivas mais deliciosas e incríveis da minha vida de leitor.

Talvez seja essa a verdadeira força dos clássicos. Eles nos permitem partir muitas vezes e, ainda assim, sempre encontrar um caminho de volta para Ítaca.

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