Quase 200 gravações transformam o universo de Manoel de Barros em uma celebração monumental aos 50 anos de Mato Grosso do Sul
Por Rogério Alexandre Zanetti
Não se trata de uma obra nascida simplesmente para ocupar as prateleiras. A intenção é ganhar estradas, atravessar rios, pousar nos quintais e fazer morada no ouvido do povo. “Casa de Caracol” reúne poetas, compositores e músicos em uma travessia artística que pretende levar a palavra do poeta às pequenas cidades do Estado.
O ambicioso projeto é idealizado pelo músico, compositor e produtor musical Moacir Lacerda, integrante formador do histórico Grupo Acaba, o projeto “Casa de Caracol” reúne centenas de vozes em torno da vida e da obra de Manoel de Barros. São poetas, escritores, compositores, cantadores e instrumentistas empenhados em transformar em música o território inventado pelo poeta, um mundo onde o chão conversa com o céu, as águas guardam memórias e aquilo que aparentemente pequenino adquire grandeza universal.
Com quase 200 gravações e mais de 100 músicas previstas para o álbum, a iniciativa desponta como uma das mais ambiciosas homenagens já realizadas ao poeta. Mais do que uma produção fonográfica, porém, a “Casa de Caracol” nasce como movimento artístico, documento histórico e declaração de amor a Mato Grosso do Sul.
Quando um Estado inteiro cabe dentro de uma canção
Às vésperas de completar seu jubileu de ouro, Mato Grosso do Sul encontra no projeto uma forma de cantar a própria existência.
A “Casa de Caracol” percorre o cenário musical e literário sul-mato-grossense para reunir diferentes gerações em torno de uma obra que brotou do Pantanal, mas ultrapassou todas as fronteiras. É como se o Estado, ao se aproximar dos 50 anos, procurasse nas palavras de Manoel de Barros uma maneira de reconhecer o próprio rosto.
Moacir Lacerda dimensiona a força coletiva da iniciativa: “Temos quase 200 gravações, é um trabalho grandioso. Visamos não somente a produção fonográfica e também fazer um lançamento desse álbum com mais de 100 músicas, mas também fazer um grande show, percorrendo algumas cidades de Mato Grosso do Sul, levando esses poetas, esses cantadores, esses músicos, para apresentar Manoel de Barros para as nossas pequenas localidades.”
A proposta é retirar a homenagem dos grandes centros e colocá-la na estrada. Fazer com que as canções cheguem às cidades menores, aos lugares onde a arte raramente desembarca com tamanha estrutura. A poesia seguirá viagem na voz dos artistas, como quem carrega uma casa nas costas — ou um Estado inteiro dentro de uma canção.
O canto que impede o naufrágio
Um dos momentos de grande força do projeto é “Canto do Chão”, com letra do poeta Édson Moraes. A composição mergulha na identidade de Corumbá, do Pantanal e de um Mato Grosso ancestral, anterior às fronteiras políticas, mas profundamente presente na memória e na cultura de seu povo.
“Quando canto, venho à tona e cresço. Se não canto, naufrago… eu nasci em Corumbá, sou filho de mato-grossenses da beira do Coxipó… o Maneco é um só Mato Grosso e é incompleto, por isso universal. Ele detestava homenagem, preferia ser doutor em desimportância.”
A declaração revela o paradoxo que acompanha a “Casa de Caracol”: celebrar um homem que desconfiava das solenidades e preferia a companhia das coisas esquecidas. Talvez por isso a maior homenagem não esteja na imponência dos números, mas na maneira como sua poesia continua criando raízes em outras vozes.
Édson Moraes reconhece em Manoel de Barros um poeta nascido de uma geografia particular, mas capaz de falar ao mundo. Sua universalidade veio justamente da fidelidade ao chão: quanto mais fundo mergulhou no Pantanal, mais longe sua palavra alcançou.
A monumental grandeza do pequeno
Com produção compartilhada por Moacir Lacerda e Marcos Enoch, a “Casa de Caracol” segue com as gravações em ritmo intenso. A expectativa é de que o álbum completo seja lançado oficialmente no próximo ano, integrando as celebrações pelos 50 anos de Mato Grosso do Sul.
A “Casa de Caracol” começa monumental em seus números, mas permanece fiel à matéria essencial de Manoel de Barros: o chão, a água, o silêncio, os bichos, as infâncias e as coisas aparentemente sem importância.
Vem aí mais uma gigante produção da música sul-mato-grossense. E enquanto não chega, ficamos com a certeza de que as gravações estão sendo erguidas para celebrar o homem que preferia abaixar os olhos e observar o que o mundo deixa para trás. E talvez esteja justamente aí a grandeza desta obra, construir um monumento não de pedra, mas de vozes. Um monumento que canta, viaja e respira. Uma casa capaz de carregar Manoel de Barros por todo Mato Grosso do Sul — devagar, profundamente, como um caracol atravessando a eternidade.





