Em entrevista ao podcast Política de Primeira, a ex-ministra das Mulheres Cida Gonçalves fez um alerta sobre o crescimento da violência contra mulheres no país. Cida destacou que, embora o Brasil tenha acumulado importantes conquistas legais desde a redemocratização, especialmente após a Constituição de 1988, as últimas décadas também foram marcadas pela disseminação da misoginia. Esse movimento, afirma, se intensificou a partir de 2010, com a resistência social ao avanço das mulheres no mercado de trabalho e em espaços de poder.
A ex-ministra aponta que a internet amplificou discursos violentos. “Se você tem 8 milhões de pessoas consumindo conteúdo que prega ódio todos os dias, o resultado é o aumento do feminicídio. Esse discurso autoriza a violência”, afirmou.
Além da quantidade crescente de casos, Cida chamou atenção para o aumento da crueldade. “Ninguém dá 54 facadas sem ser movido por ódio”, disse. Ela citou episódios recentes para ilustrar esse agravamento, como o caso de uma mulher e sua filha queimadas vivas em Mato Grosso do Sul, e o de um homem no Rio Grande do Sul que jogou o próprio filho de um pontilhão para atingir a mãe.
“Não dá pra gente ficar só fazendo crítica. Eu defendo que primeiro a gente precisa ter uma legislação nacional que garanta não 30% de cota, mas 30% de cadeiras em todos os parlamentos. Nas câmaras de vereadores, na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional. Porque isso garante que nós vamos ter três mulheres, não importa que partido, mas elas não vão estar só”. Cida citou países em que este cenário é realidade. Além disso, enumerou outros elementos necessários para o combate à violência de gênero.
A ex-ministra das Mulheres Cida Gonçalves (PT) falou sobre a atuação durante o caso Vanessa Ricarte, jornalista sul-mato-grossense que foi morta pelo companheiro e levantou diversos debates nacionais sobre as leis e protocolos de proteção às mulheres.
“Tem algumas coisas que antecede, a questão do atendimento, a qualidade do atendimento. O sistema ele vai funcionar, porque aí a gente coloca o sistema, porque isso a gente cria uma fantasia para justificar os erros. O sistema só vai funcionar se aqui embaixo funcionar, porque nós precisamos entender que o Estado brasileiro é feito das pessoas que trabalham no Estado brasileiro. E o sistema ele é consequência de quem faz com que ele funcione, o ser humano”, afirmou.
Cida falou também sobre como se deu a saída do ministério da Mulher. Explicou que o processo foi dialogado com o presidente Lula e enfatizou que as denúncias de assédio envolvendo a pasta, investigadas na época, não foram determinantes, mas podem ter contribuído para sua saída. Segundo Cida, o episódio gerou “exposição desnecessária”, mas não motivou a decisão do presidente. Ela afirmou que foi ela própria quem optou por não permanecer no cargo. “Influenciou, mas não foi o motivo central”, disse.
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