Vítimas de feminicídio em Mato Grosso do Sul (Foto: Reprodução)
Em apenas cinco meses de 2026, Mato Grosso do Sul já contabiliza 13 vítimas de feminicídio. Mulheres de diferentes idades, profissões, origens e histórias tiveram a vida interrompida por maridos, ex-companheiros, namorados ou familiares em crimes marcados pela violência extrema.
Os casos revelam um padrão que se repete: histórico de agressões, relações abusivas, ciúmes, ameaças e, em muitos episódios, denúncias anteriores que antecederam os assassinatos.
Os 13 feminicídios registrados em apenas cinco meses de 2026 evidenciam a persistência da violência de gênero em Mato Grosso do Sul.
As vítimas tinham entre 18 e 74 anos, eram indígenas, profissionais da saúde, policial militar, arquiteta, mães, avós e trabalhadoras que deixaram filhos, familiares e comunidades inteiras marcadas pela dor.
Por trás das estatísticas estão histórias de vidas interrompidas e sinais que, em muitos casos, já apontavam para situações de violência antes do desfecho fatal.
Confira quem eram as 13 vítimas de feminicídio registradas no estado neste ano.
Josefa dos Santos, 44 anos
O primeiro feminicídio do ano ocorreu em 16 de janeiro, na aldeia indígena Damakue, em Bela Vista.
Josefa dos Santos, de 44 anos, foi morta com um disparo de espingarda pelo marido, João Fernando Viegas, de 51 anos. Segundo a Polícia Civil, o casal discutiu antes do crime. Após matar a esposa, o autor atirou contra si mesmo.
Testemunhas relataram histórico de violência doméstica e constantes brigas, embora não houvesse registros policiais ou medidas protetivas solicitadas pela vítima.
Os corpos foram encontrados dentro da residência onde viviam. O casal não tinha filhos.
Rosana Candia Ohara, 62 anos
Rosana Candia Ohara, de 62 anos, foi assassinada em 24 de janeiro, em Corumbá.
Separada do ex-marido havia alguns anos, continuava ajudando o homem, Antônio Lima Ohara, de 73 anos, que morava sozinho. Segundo familiares e vizinhos, ele era extremamente ciumento.
Enquanto regava as flores que cultivava e vendia, Rosana foi atacada com pauladas pelo ex-companheiro. Testemunhas afirmaram que o agressor sorriu enquanto a vítima agonizava.
Após o crime, ele deixou o local de bicicleta e foi preso horas depois.
Nilza de Almeida Lima, 50 anos
No dia 22 de fevereiro, Nilza de Almeida Lima foi encontrada morta dentro de casa, em Coxim, com uma perfuração de faca no abdômen.
Inicialmente, o marido tentou responsabilizar o filho do casal pelo crime. No entanto, a investigação reuniu imagens de câmeras, depoimentos e provas técnicas que apontaram o próprio companheiro como autor.
Nilza já havia denunciado o marido por ameaças, perseguições e violência doméstica em 2024. Na época, optou por não prosseguir criminalmente nem solicitar medidas protetivas.
Beatriz Benevides, 18 anos
Aos 18 anos, Beatriz Benevides tornou-se a quarta vítima de feminicídio do Estado.
Ela foi assassinada pelo namorado, Wellington Patrezi, de 20 anos, em Três Lagoas, no dia 25 de fevereiro.
O casal havia acabado de se mudar para um apartamento. Após uma discussão, o rapaz esganou a jovem até a morte e, em seguida, procurou a Polícia Militar para confessar o crime.
Segundo familiares, Beatriz estava feliz com a nova fase da vida, havia conseguido emprego e fazia planos para o futuro.
Liliane de Souza Bonfim Duarte, 51 anos
A enfermeira Liliane de Souza Bonfim Duarte morreu em 6 de março, três dias após ser brutalmente atacada pelo marido, o subtenente do Corpo de Bombeiros Elianderson Duarte, em Ponta Porã.
Além de atingir a esposa com golpes de martelo, o agressor também feriu dois dos três filhos do casal.
Liliane era conhecida pelo trabalho na enfermagem e pela dedicação à causa animal. Ela cuidava de cerca de 20 gatos e dois cães.
Após sua morte, a Sala Lilás de Ponta Porã recebeu seu nome em homenagem à sua trajetória. Seus órgãos também foram doados e beneficiaram pacientes em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Distrito Federal.
Leise Aparecida Cruz, 41 anos
Leise Aparecida Cruz foi assassinada em Anastácio pelo companheiro, Edson Delgado, de 43 anos.
Após matá-la, ele utilizou o celular da vítima para enviar mensagens à filha, tentando convencer familiares de que ela ainda estava viva.
A farsa foi descoberta após exames apontarem que Leise já estava morta quando as mensagens foram enviadas.
Em homenagens nas redes sociais, familiares a descreveram como uma mulher alegre, amorosa e dedicada aos filhos. Ela deixou uma criança de apenas 3 anos.
Ereni Benites, 44 anos
No dia 8 de março, Ereni Benites, de 44 anos, foi assassinada pelo ex-marido em Paranhos.
Após uma confraternização, ela voltou para casa para dormir. Pouco tempo depois, a residência foi incendiada. A investigação concluiu que o ex-companheiro utilizou um desodorante e um isqueiro para provocar o fogo.
Integrante do povo Kaiowá, Ereni era conhecida pela boa convivência na comunidade Tekoha Paraguassu.
Ela trabalhava no ramo alimentício e deixou três filhos.
Fátima Aparecida da Silva, 58 anos
Fátima Aparecida da Silva foi assassinada pelo sobrinho, Maurício da Silva, de 21 anos, em Selvíria, no dia 23 de março.
Descrita pelas filhas como uma mulher generosa e guerreira, Fátima enfrentou inúmeras dificuldades ao longo da vida. Trabalhou na roça desde a infância, criou os filhos praticamente sozinha e era considerada o alicerce da família.
Mesmo diante dos alertas sobre o comportamento agressivo do sobrinho, continuava ajudando o familiar com alimentos, dinheiro e apoio.
Marlene Brito Rodrigues, 59 anos
A subtenente da Polícia Militar Marlene Brito Rodrigues foi assassinada em Campo Grande, no dia 6 de abril.
Com 37 anos de carreira, ela ajudou a abrir espaço para mulheres em setores antes ocupados exclusivamente por homens na corporação.
Colegas a descrevem como uma profissional exemplar, respeitada e querida.
O principal suspeito é o namorado, com quem mantinha relacionamento havia pouco mais de um ano.
Vera Lúcia da Silva, 41 anos
Vera Lúcia da Silva foi assassinada pelo ex-companheiro em Eldorado, em 12 de abril.
O crime ocorreu na frente da filha do casal, uma criança de apenas 9 anos.
A vítima possuía registros anteriores de violência doméstica e medidas protetivas contra o autor.
Dias após o sepultamento, a história ganhou contornos ainda mais chocantes quando seu túmulo foi violado e seu corpo retirado do caixão. Três homens foram presos posteriormente pelo crime.
Ely da Silva Quevedo, 53 anos
Ely da Silva Quevedo morreu em 13 de abril após cair de uma caminhonete na BR-163, em Campo Grande.
Inicialmente tratado como acidente de trânsito, o caso passou a ser investigado pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher após o surgimento de indícios de feminicídio.
Arquiteta e urbanista formada pela Anhanguera-Uniderp, Ely era muito conhecida entre amigos e colegas de profissão, que prestaram diversas homenagens após sua morte.
Zelita Rodrigues de Souza, 74 anos
Moradora da região de Porto Isabel, em Mundo Novo, Zelita Rodrigues de Souza foi assassinada pelo companheiro.
A investigação apontou que ela sofria agressões constantes havia anos.
Familiares relataram episódios de espancamentos, queimaduras provocadas por cigarros e ameaças.
Após o crime, o autor permaneceu quatro dias dentro da residência ao lado do corpo da vítima antes de comunicar o ocorrido a vizinhos.
Fabíola Marcotti, 51 anos
A 13ª vítima registrada em 2026 foi Fabíola Marcotti, de 51 anos, encontrada morta com um tiro na cabeça na residência onde morava, na Chácara dos Poderes, em Campo Grande.
O marido, o cardiologista João Jazbik Neto, acionou a polícia alegando suicídio.
Entretanto, inconsistências identificadas pela perícia e pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher levaram à abertura de investigação por feminicídio.
Amigas e pessoas próximas relataram que Fabíola vivia um relacionamento marcado por ciúmes excessivos.
“Destinos Roubados: A Epidemia do Feminicídio”
No combate à violência contra a mulher, o Bom Dia MS estreou nesta segunda-feira (25) a série documental “Destinos Roubados: A Epidemia do Feminicídio”, que traz relatos, dados e reflexões sobre uma das formas mais graves de violência de gênero.
O primeiro episódio destaca o papel da esperança, do acolhimento e do acesso à informação como ferramentas fundamentais para romper ciclos de violência e evitar que histórias terminem em tragédia.
A reportagem também mostra que identificar sinais de relacionamentos abusivos e buscar ajuda especializada pode ser decisivo para salvar vidas.
A série continua nesta terça-feira (26) com a segunda reportagem, que vai apresentar a rede de proteção criada em Mato Grosso do Sul para prevenir e combater a violência doméstica, reunindo forças de segurança, instituições de apoio e serviços especializados no atendimento às vítimas.





