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Maternidade romantizada

Chega a data que se comemora o Dia das Mães, e a reflexão sobre o tema toma conta das rodas de conversa entre as mulheres, com opiniões diversas entre idades diversas, quem é ou foi mãe, quem ainda não é e quem não quer ser, o que me fez dividir com vocês algumas destas posições.

Disse o poeta: “Ser mãe é padecer no paraíso…”

Essa visão poética de que ser mãe é apenas amor, coragem e doação cria uma “maternidade heroica” que não condiz com a realidade de muitas mulheres.

A experiência real envolve cansaço, dúvidas, choro e, por vezes, a necessidade de isolamento para manter a sanidade, o que é diferente do cenário de “conto de fadas”

Romantizar a maternidade adoece, pois minimiza desafios, gera culpa em mães exaustas e perpetua a ideia de que a mulher deve dar conta de tudo – casa, trabalho e filhos- sozinha.

Desromantizar esse ideal irrealista é essencial para uma vivência consciente, permitindo amar os filhos e reconhecer a alegria de ser mãe, sem precisar suportar dores silenciosamente, mascarando os desafios reais, como exaustão e sobrecarga, inclusive, com graves impactos na saúde mental materna.

Eu particularmente acredito que somos o maior link entre Deus e o humano, pois somente por nós mulheres chega a vida, que é um ato supremo e divino.

Mas essa romantização vem de muito tempo e a própria sociedade, o comércio e os gestores e lideres se utilizam dessa chamada de sedução.

Por que mãe é mulher que não age, pois tem seu tempo reduzido e assim não incomoda. Mãe tem pouco tempo e esse tempo é precioso e normalmente é usado para coisas urgentes. Ativismo fica por último e passa a ser uma mulher com muito menos tempo de incomodar e de reivindicar seus direitos na sociedade. 

Eu, que tenho as filhas mais lindas do mundo, mãe apaixonada, louca pelas crias, e só fui passar a ser voluntária em ações sociais, integrar grupos de mulheres e como a maioria, só consegui passar a exercer meu ativismo depois que as filhas cresceram e lhes digo de carteirinha eu concordo que essa romantização é um engodo.

 Maternidade é uma responsabilidade pesada, apesar de ser apaixonante, visceral, até porque sempre quis ser mãe e de parto normal, e faria tudo de novo, mas a verdade é que é sofrida e é um encargo para o resto da sua vida.

Não dá para ser mãe 08 (oito) horas por dia, ou reivindicar redução da jornada de 6 a 1, ou redução da jornada semanal de 40 horas semanais ou outra qualquer alteração que o valha, é jornada ininterrupta e constante, sem direito a descanso semanal.

E me deparei com um texto de uma imigrante australiana que reside no Brasil atualmente, e que traz muitas constatações, que coincidem com o que tenho ouvido nas rodas de conversa e que reproduzo parte abaixo (“”), intercalando com reflexões pessoais:

“Mãe é uma mulher que sofre, que chora, que reclama. Mãe se tranca no banheiro por minutos livre pela sua sanidade. Mãe é uma mulher que, como nunca antes, questiona o patriarcado e os malditos papéis de gêneros dentro da maternidade. Mãe fica com inveja do pai e da vida dele que segue tão igual a antes. Mãe sente vontade de ter nascido homem. Mãe se exclui socialmente. Mãe carrega nas costas dupla ou tripla jornada. Mãe abre mão da vida profissional porque não tem escolha. ”

Veja que por vezes aceita qualquer trabalho porque precisa, a famigerada, feminização da pobreza que já vem sendo estudada e reconhecida.

“Mãe se arrepende, pelo menos por um segundo, ela se arrependerá de ter sido mãe e se sentirá sozinha. Mãe vai querer que a licença maternidade acabe logo, e depois não vai querer que acabe nunca. 

Mãe é pura contradição, sentimentos controversos: dói ficar em casa 100% do tempo com um bebê, mas também dói sair de casa sem ele.

Além das suas dores, mãe também sente as da cria (10x mais forte). Mãe é mulher sobrecarregada. É mulher há dias sem dormir. Cansada. É mulher sem o mínimo de vaidade pois já abriu mão do que não é urgente. Ou é mulher vaidosa que se sente feia por não ter tempo. Mãe se sente muito feia. Tem que se acostumar com o novo corpo.

Mãe passa fome. Passa dias sem tomar banho direito. Mãe olha para o céu e agradece quando consegue fazer xixi. Mãe tem suas vontades e necessidades jogadas para o lado para atender a cria. “Ahhhh!  mas mãe que é mãe faz isso feliz”. Ela não tem escolha.

Mãe é insegura. Mãe é uma mulher que se tornou tão vulnerável quanto como se sua pele do peito fosse arrancada e o coração estivesse exposto ali assim tão fácil de ser machucado.

Diariamente se questionará como mãe, e para o resto da vida, pois a sociedade não vai cansar de apontar o dedo e lembrá-la de como ela provavelmente está fazendo ou fez isto ao aquilo errado. ”

E as violências a que se submete pelo peso de ser mãe, atura marido por medo de se separar, por medo de ser mãe solteira. Mãe tem dores de todo tipo. Mãe atura até violência doméstica, violências físicas, psicológicas, morais, patrimoniais e outras tantas dores.

“Mãe é uma mulher que sonhou com a maternidade romântica e sofreu muito para adaptar-se quando viu que a realidade é bem diferente. E que, por conta da poesia que todos pensam quando se fala em “ser mãe”, ela não se sente no direito de reclamar. Não sem se sentir envergonhada ou culpada. Porque MÃE É MÃE, dizem todos.

Essa frase opressora que serve de justificativa para que aceitemos todo o peso da maternidade sem reclamar, quase como se fosse “agora aguenta”.

E Julia Harger arremata seu texto:

“E é claro que eu escrevo esse texto com o coração e com culpa, pois afinal, MÃE É MÃE, né? O que eu estava pensando? Ainda bem que, no sofrimento, nas situações difíceis nós também crescemos. Agradeço a maternidade por me mostrar o quão forte nós realmente somos. E você nos subestima patriarcado, quando acha que a falta de tempo que a maternidade acarreta vai nos calar. Estamos juntando nossas forças. Nos aguarde.”

Enfim que a sociedade entenda e respeite esse momento e que as mulheres possam ter seus filhos quando e como quiserem, com planejamento reprodutivo consciente, com parceiro ou sem ele, mas sem romantizar o ser mãe, pois como em todas as situações da vida existe o positivo e o negativo, e precisamos encontrar o equilíbrio para continuar em frente pelo caminho do sol e sem medo de ser feliz!

Dra. Iacita Azamor Pionti – Advogada e Coordenadora Municipal da Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande-MS

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