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NO WOLLING

Wolling é a soma de dois conceitos: woman (mulher em inglês) e bullying, e se investiga há 20 anos, mas somente nos últimos anos o tema veio à tona trazendo discussões e reflexão. 

“Sei que as irmãs de meu marido me criticam. Percebo suas caras de desprezo. Em qualquer reunião familiar evitam conversar comigo. Me sinto uma fracassada quando estão presentes.” Situação no âmbito familiar, mas que ocorre em outros meios, como profissionais e sociais. 

Qual mulher ao longo de sua vida não se sentiu alguma vez alvo de críticas de outras mulheres? E quem já não fez parte alguma vez de uma conversa em que se acusava uma delas de algum rumor, ou se ridicularizava alguma mulher pelo seu aspecto físico? O maltrato psicológico às mulheres por parte de outras de seu mesmo gênero?

Se algo caracteriza o gênero feminino tradicionalmente, é a intuição, e é pouco provável que isto falhe quando uma mulher se sente vítima de um tratamento vexatório por parte de uma ou de um grupo de mulheres. E essa agressão, sem importar o grau, repercute negativamente na pessoa que a recebe e também para aquela que reproduz.

Vivemos em uma sociedade na qual todos contribuímos ao desprestígio de outros, sem nos dar conta de que muitas vezes invadimos suas vidas com uma impunidade e cumplicidade surpreendentes. A depreciação e a crítica destrutiva está mais bem vista que a defesa de direitos. Não vale alegar que a sociedade é assim e que cada um tem que se preocupar com si mesmo. Se não nos damos conta de que nosso bem-estar individual vai depender do bem-estar comum, cedo ou tarde seremos nós as vítimas. Mostremos empatia e sororidade denunciando e não permitindo estes comportamentos abusivos e de maltrato psicológico em contextos de grupos.

Normalmente uma mulher sozinha não pode abordar, nem resolver a situação que requer o apoio e a cumplicidade de todas.

Diante de um abuso, não tenhamos dúvida em mobilizar imediatamente em apoiar a vítima e o entorno. 

A primeira reação ante uma conduta abusadora costuma ser a do auto-castigo: a vítima tende a tentar encontrar motivos para as ações de sua/as maltratadora/as, fazendo julgamentos a si mesma, se culpabilizando e se escondendo dos e das demais. 

Se neste estado inicial não se reage, falando com amigas, familiares, colegas de trabalho, a mulher abusada vai se isolar e poderá gerar sentimentos de insegurança e indefensividade difíceis de afrontar com o tempo.

A vítima precisa de coragem para comunicar aos demais seu grau de mal-estar psicológico, e determinação para lutar contra esse tipo de situações, demostrando para sua “algoz” que não a teme, enaltecendo seus valores pessoais. 

Não nos esqueçamos que as maltratadas se nutrem da insegurança e falta de confiança de suas vítimas.

O wollying é um tipo de comportamento que responde a um padrão de maltrato psicológico. É possível esperar, portanto, que a mulher que o sofre desenvolva todos os sintomas próprios deste tipo de situações: desequilíbrio emocional, baixa auto-estima, problemas de auto-imagem, insegurança, desamparo aprendido, sentimentos de medo, rejeição, solidão, incompreensão. É possível até mesmo desenvolver depressão e pensamentos de suicídio, levar a faltas no trabalho ou até mesmo a própria demissão de um emprego assim como evasão de demais espaços.

Essa vivência, quando se segue ao longo do tempo, produz estados de alerta permanente característicos de episódios de estresse pós-traumático, e aumenta o risco de que evoluam para fobias específicas (social por exemplo), ansiedade generalizada e inclusive, transtornos alimentares, alcoolismo e transtornos de personalidade dependente.

Por outro lado, a maltratada se utiliza da sua conduta para proteger-se do mesmo dano que ela causa: a crítica, o descrédito, a rejeição… Isso pode ocasionar um comportamento obsessivo dirigido ao controle de aqueles detalhes que ela considera imprescindíveis para manter esse estado prevalente aos demais, e que costumam fundamentar o conteúdo de suas críticas: o cuidado da imagem, um interesse desmedido em resultar atrativa tanto para os homens como para as outras mulheres, ou de ser a melhor amiga, mãe e esposa ou a melhor profissional…

A exposição contínua a este tipo de exigências pode dar lugar a quadros psicopatológicos que possuem como denominador comum o estresse, a ansiedade e a conduta obsessiva por determinados aspectos da imagem e da personalidade.

Ontem tive o privilégio de assistir palestra dentro da Confam-Conferência Nacional da Associação Internacional BPW em Curitiba-PR, das competentes estudiosas do assunto – Katia Teixeira e Kaká Ribeiro, da qual me chamou atenção que o combate à essa violência e que possamos apoderar nossas mulheres, estimulando suas potencialidades, sem elogios frívolos, mas consistentes e verdadeiros.

Também ressaltaram que essa violência é tão grave que pode ser um crime previsto no

Código Penal nos crimes contra a pessoa. 

Que possamos continuar refletindo sobre o assunto e apoiando as mulheres que sofrem tais agressões, mostrando para as agressoras que esse tipo de violência apenas reduz as oportunidades das mulheres atrasa o avanço da luta pela equidade e o combate pela violência contra a mulher. 

Caminhemos com sororidade e empatia sem medo de ser feliz!

Dra. Iacita Azamor Pionti

Advogada e presidente do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres

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