Especialistas alertam que “engolir o choro” não é apenas um ato de resiliência social, mas um gatilho para uma cascata de reações físicas que podem impactar a saúde a longo prazo
O nó na garganta, a respiração curta e a pressão atrás dos olhos. Quase todos já experimentaram a luta interna para conter as lágrimas em um momento de vulnerabilidade. Seja por convenção social, ambiente de trabalho ou autoproteção, “segurar o choro” é um comportamento comum, mas que impõe um custo biológico imediato ao organismo.
Diferente do que muitos acreditam, o choro não é apenas uma resposta emocional; é um mecanismo biológico de autorregulação. Quando impedimos esse processo, forçamos o corpo a lidar com uma sobrecarga de estresse sem a devida “válvula de escape”.
A “Luta ou Fuga” Interna
No momento em que você decide não chorar, o sistema nervoso simpático é ativado. O cérebro interpreta a situação de estresse e prepara o corpo para uma reação de emergência.
O Nó na Garganta (Globo Faríngeo): Para maximizar a entrada de oxigênio, o cérebro ordena que a glote (a abertura entre as cordas vocais) permaneça aberta. No entanto, quando tentamos engolir para conter o choro, forçamos os músculos da garganta a trabalharem contra essa abertura, criando a sensação física de aperto ou “nó”.
Tensão Muscular e Respiração: A musculatura do tórax e do rosto fica rígida. A respiração torna-se superficial e rápida, o que pode levar a tonturas e um aumento súbito da frequência cardíaca.
O Coquetel de Hormônios Retidos
O choro emocional é quimicamente diferente das lágrimas que lubrificam os olhos quando cortamos uma cebola. Estudos indicam que as lágrimas de tristeza contêm níveis mais altos de prolactina, hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) e leucina-encefalina (um analgésico natural).
Ao segurar o choro, esses subprodutos do estresse permanecem circulando na corrente sanguínea. “O choro é uma forma de excreção. Quando reprimimos a resposta emocional, mantemos o corpo em um estado de alerta prolongado, o que eleva os níveis de cortisol, o hormônio do estresse”, explicam especialistas em psicossomática.
Consequências a longo prazo
A repressão sistemática das emoções pode evoluir de um desconforto passageiro para problemas crônicos. Pesquisas correlacionam a inibição emocional com:
- Enfraquecimento do Sistema Imunológico: O cortisol alto inibe a produção de células de defesa.
- Problemas Cardiovasculares: A manutenção da pressão arterial elevada devido ao estresse contido.
- Dores Crônicas: Especialmente cefaleias tensionais (dor de cabeça) e dores cervicais.
Chorar é um ato de saúde
Embora o controle emocional seja uma habilidade social valiosa, psicólogos e médicos concordam que é necessário encontrar um espaço seguro para permitir que o choro aconteça. Chorar ativa o sistema nervoso parassimpático, responsável por restaurar o estado de repouso e relaxamento do corpo.
Como diz o ditado popular, “lágrimas não choradas fazem outros órgãos chorarem”. Ou como nossos avós diziam: “Chorar faz bem ao coração”. Permitir-se o choro não é um sinal de fraqueza, mas um processo fisiológico vital para manter o equilíbrio biológico e mental.





