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Por que algumas pessoas se tornam narcisistas?

Nos últimos anos, o termo “narcisista” se tornou onipresente. Redes sociais, conversas de bar e até manchetes jornalísticas o utilizam como explicação para comportamentos abusivos, egocêntricos e tóxicos.

De ex-parceiros a colegas de trabalho, passando por figuras públicas, muitas pessoas são rotuladas dessa forma. Essa banalização, no entanto, levanta dúvidas sobre a legitimidade dos julgamentos.

Ainda assim, é preciso reconhecer que o narcisismo não é invenção da internet. Em sua forma mais extrema, ele é classificado como transtorno de personalidade narcisista, uma condição rara da saúde mental.

Fora dos diagnósticos clínicos, o narcisismo também representa um conjunto de traços de personalidade, presentes em todos nós em diferentes níveis.

Para quem conviveu com indivíduos com altos níveis desses traços, o impacto costuma ser marcante. E uma dúvida inevitável surge: o que leva alguém a desenvolver esse tipo de comportamento?

Para responder, pesquisadores têm voltado o olhar às origens emocionais — especialmente ao modo como esses indivíduos foram apegados e cuidados na infância.

Compreendendo os dois lados do narcisismo

Há dois tipos principais de narcisismo, com características distintas. O mais reconhecível é o narcisismo grandioso, que inclui comportamentos expansivos, dominantes e agressivos, marcados por autoconfiança exagerada.

Já o narcisismo vulnerável é mais reservado e introspectivo. Envolve sensibilidade elevada à crítica, insegurança profunda e uma postura defensiva que tenta esconder uma autoestima frágil.

Apesar das diferenças, ambos compartilham elementos essenciais, como manipulação, frieza emocional e senso de superioridade. Esses traços dificultam a construção de relacionamentos saudáveis e estão por trás de comportamentos problemáticos.

O narcisismo vulnerável, em particular, tem sido cada vez mais associado a padrões destrutivos nas relações afetivas.

Pessoas com altos níveis de narcisismo vulnerável costumam exibir comportamentos como:

  • Love bombing: demonstrações intensas e súbitas de afeto no início de uma relação, que podem ter motivações manipuladoras;
  • Ghosting: o desaparecimento repentino de uma relação sem explicação;
  • Breadcrumbing: gestos intermitentes de interesse afetivo, sem o desejo real de compromisso.

Além disso, elas tendem a relatar menor satisfação com os relacionamentos, aceitam com mais facilidade a infidelidade e estão mais propensas a agredir emocional ou fisicamente seus parceiros.

O papel do apego no desenvolvimento emocional

A teoria do apego, desenvolvida a partir da psicologia do desenvolvimento, sugere que nossas primeiras experiências com os cuidadores influenciam profundamente a maneira como nos relacionamos na vida adulta.

Quando recebemos carinho, segurança e estabilidade na infância, desenvolvemos um apego seguro, que favorece a criação de laços fortes e equilibrados.

Por outro lado, relações marcadas por negligência, abuso ou imprevisibilidade contribuem para o desenvolvimento de apegos inseguros.

Esses estilos são classificados em três categorias principais:

  • Apego preocupado: a pessoa possui uma visão negativa de si e positiva dos outros. Busca aceitação constante e teme rejeição;
  • Apego desdenhoso: caracteriza-se por autoestima elevada, mas desconfiança em relação aos outros. Valoriza a independência e evita intimidade;
  • Apego medroso: mistura baixa autoestima com visão negativa dos outros. Deseja intimidade, mas teme a dor que ela pode causar.

Esses estilos influenciam diretamente como os indivíduos vivenciam os relacionamentos amorosos, inclusive aqueles que apresentam traços narcisistas.

O elo entre narcisismo e estilos de apego

Um estudo recente analisou justamente essa relação. Em uma meta-análise que reuniu dados de 33 pesquisas anteriores, mais de 10 mil pessoas foram avaliadas para se compreender como o narcisismo se conecta aos estilos de apego adulto.

No geral, os resultados mostraram que o narcisismo está associado aos três tipos de apego inseguro. Mas a descoberta mais relevante surgiu quando os pesquisadores separaram os tipos de narcisismo.

narcisismo vulnerável demonstrou correlação significativa com os estilos preocupado e medroso, enquanto o narcisismo grandioso não apresentou ligação relevante com nenhum estilo de apego inseguro.

Essa constatação indica que, embora não seja possível afirmar que um tipo específico de apego causa narcisismo vulnerável, existe uma conexão importante. Os estudos eram correlacionais — ou seja, analisavam relações, não causalidades.

Para comprovar se o apego inseguro pode de fato provocar narcisismo vulnerável, seria necessária uma pesquisa longitudinal, acompanhando indivíduos desde a infância até a vida adulta.

Mesmo assim, os resultados sugerem que estilos de apego baseados em insegurança, especialmente os marcados por medo e carência, podem ser fatores de risco no desenvolvimento do narcisismo vulnerável.

Feridas emocionais e possibilidades de cura

Ter um estilo de apego inseguro não significa, obrigatoriamente, desenvolver narcisismo. Muitos indivíduos com histórico de vínculos frágeis na infância conseguem construir relações estáveis.

Contudo, em alguns casos, o narcisismo vulnerável parece surgir como um mecanismo de defesa diante da dor emocional causada por negligência ou abuso.

A boa notícia é que esse padrão pode ser modificado. Embora os estilos de apego tendam a permanecer relativamente estáveis ao longo da vida, mudanças são possíveis com o apoio certo.

Abordagens terapêuticas como a terapia focada na emoção ou a terapia do esquema trabalham diretamente com os vínculos emocionais e podem ser eficazes na reconstrução de padrões relacionais mais seguros.

Para além da terapia individual, há um aspecto social indispensável: é fundamental que famílias e crianças tenham acesso a cuidados de saúde mental oportunos e gratuitos. Quando as crianças recebem suporte emocional adequado desde cedo, é possível evitar que experiências traumáticas moldem negativamente suas relações futuras.

Prevenção: a chave para romper o ciclo

Prevenir é sempre melhor que remediar. Fortalecer a base emocional das crianças, por meio de vínculos seguros com pais e cuidadores, é uma forma de interromper o ciclo de insegurança emocional que pode culminar no desenvolvimento de traços narcisistas.

Esse cuidado é especialmente necessário em cenários de alta vulnerabilidade. A Austrália, por exemplo, apresenta índices preocupantes de abuso e negligência infantil, incluindo violência emocional e física — fatores já associados ao narcisismo vulnerável. Mas essa realidade também é comum em muitos outros países, incluindo o Brasil.

Ignorar o sofrimento emocional na infância tem um preço alto. Quando as feridas não são tratadas, podem se transformar em comportamentos disfuncionais que afetam não apenas o indivíduo, mas todas as suas relações — e, por consequência, a próxima geração.

O Segredo

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