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Por Olga Cruz
Assistir ao Debate Midiamax entre os candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul ajudou a compreender uma decisão que vinha sendo bastante questionada durante a campanha: a ausência do governador Eduardo Riedel em debates anteriores.
Depois do que se viu, a pergunta talvez tenha mudado. Em vez de simplesmente questionar por que Riedel não compareceu antes, vale perguntar: que debate queremos oferecer ao eleitor?
Porque debate político deveria servir para confrontar projetos, números, prioridades e visões de Estado. Deveria ser o momento em que quem governa presta contas e quem pretende governar demonstra que conhece Mato Grosso do Sul suficientemente bem para apresentar uma alternativa consistente.
Em boa parte da noite, porém, o governador virou o alvo preferencial dos adversários.
É natural. Riedel está no cargo, busca a reeleição e carrega consigo quatro anos de decisões que podem e devem ser questionadas. O contraditório é saudável e indispensável à democracia.
Mas existe uma diferença bastante perceptível entre confrontar uma administração e transformar o debate em uma sucessão de acusações na expectativa de que alguma delas sobreviva até o corte das redes sociais no dia seguinte.
E foi justamente aí que alguns momentos do debate perderam densidade.
Enquanto respondia aos questionamentos com toda técnica, competência e educação que lhe conferem, Riedel recorreu repetidamente aos diversos números e ações de seu governo.
Na educação, ele citou mais de 270 escolas restauradas, estudantes do ensino médio participando de cursos profissionalizantes, concurso público para dois mil professores e a remuneração do magistério estadual.
Pode-se discutir cada número, cobrar resultados e questionar prioridades. Aliás, é exatamente isso que uma oposição preparada deve fazer. Mas combater números exige outros números. Contestar política pública exige apresentar outra política pública. E criticar um modelo de governo exige, minimamente, mostrar ao eleitor qual modelo pretende colocar no lugar.
Ataque, sozinho, não é programa de governo.
Um dos momentos mais alegóricos veio do candidato Daniel Lemes, do PCO, que chamou o governo Riedel de “genocida” e chegou a acusar o governador de ser “assassino de indígena”.
Genocídio não é uma palavra qualquer. Não deveria ser utilizada como adjetivo eleitoral descartável, muito menos como recurso retórico para produzir impacto diante das câmeras. É uma acusação gravíssima, que exige fatos e fundamentação igualmente graves.
Riedel respondeu citando aquisição de terras reivindicadas por comunidades indígenas e ações de habitação, infraestrutura e abastecimento de água nas aldeias.
É justamente esse segundo terreno que deveria prevalecer: fatos contra fatos, propostas e contrapropostas. Quando o vocabulário político precisa ser inflado até chegar a acusações extremas para ganhar atenção, o debate corre o risco de produzir mais calor do que luz, no caso do debate de ontem, produziu mais um verdadeiro circo protagonizado pelos adversários,
Outro capítulo peculiar da noite ficou por conta de Fábio Trad, do PT, e Lucien Rezende, do PSOL.
Em determinado momento, parecia menos uma discussão sobre o futuro de Mato Grosso do Sul e mais uma disputa para estabelecer quem possuía o certificado de autenticidade da esquerda.
Vieram questionamentos sobre alianças, trajetórias, coerência política e posicionamentos anteriores. Tudo legítimo, evidentemente. Mas, para o eleitor que aguardava saber qual projeto cada candidatura apresenta para saúde, segurança, emprego, infraestrutura ou desenvolvimento econômico, a disputa ideológica provavelmente acrescentou menos do que poderia.
Política não é teste de pureza ideológica.
E uma eleição para governador deveria ser, sobretudo, uma discussão sobre Mato Grosso do Sul.
Também houve acusações relacionadas à corrupção. Quando confrontado, Riedel afirmou que um dos esquemas mencionados pelos adversários havia sido descoberto a partir de mecanismos do próprio governo, encaminhado para auditoria e Polícia Civil, resultando em prisão e exoneração dos envolvidos.
Novamente: acusação precisa encontrar resposta; resposta precisa encontrar fiscalização; e o eleitor precisa ter elementos para avaliar ambas.
Talvez tenha sido esse o contraste mais interessante produzido pelo debate.
Riedel chegou carregando uma vantagem e uma desvantagem que pertencem a qualquer governante que disputa a reeleição: tem quatro anos para mostrar, mas também quatro anos pelos quais responder.
Seus adversários possuem a vantagem de não precisarem defender a atual administração, mas carregam outra obrigação igualmente importante: demonstrar que aquilo que oferecem em seu lugar é viável.
E é aí que o debate político precisa subir de nível.
Dizer que tudo está errado é relativamente fácil. Difícil é explicar como corrigir, quanto custa, de onde sairá o dinheiro, quais serão as prioridades e em quanto tempo aparecerão os resultados.
Governar não cabe em uma frase de efeito.
O Debate Midiamax teve importância justamente porque colocou todos os candidatos frente a frente e alcançou milhares de eleitores em Mato Grosso do Sul. E, apesar dos momentos de tensão e das trocas de acusações, também permitiu que propostas e diferenças políticas fossem apresentadas.
Mas deixou outra lição bastante evidente: barulho não pode ser confundido com conteúdo.
Uma democracia madura precisa de oposição firme. Precisa de candidato que incomode, investigue, cobre e confronte o governante. Mas precisa também de oposição capaz de terminar a frase depois da crítica.
“Está errado” é apenas o começo.
A pergunta seguinte é inevitável: e você faria o quê?
É nessa resposta que começa a diferença entre protestar contra um governo e estar preparado para governar um Estado.
Riedel terá de continuar respondendo pelas escolhas de sua administração e apresentando aquilo que pretende fazer caso conquiste um segundo mandato, e ao que indicam as últimas pesquisas, vai sim, governar um segundo mandato. Provando que a maioria da população aprova sua gestão.
Seus adversários, por sua vez, terão outras oportunidades para demonstrar que possuem mais a oferecer do que acusações, disputas ideológicas e frases destinadas a viralizar.
O eleitor sul-mato-grossense merece esse esforço.
Porque, no final das contas, governar Mato Grosso do Sul exige muito mais do que vencer uma discussão diante das câmeras. Exige conhecer o Estado, compreender suas contas, enfrentar seus problemas e transformar promessas em políticas públicas.
Ataques podem render manchetes. Frases agressivas podem render memes. Mas, quando as câmeras se apagam, nenhuma delas administra uma escola, equipa um hospital, protege uma fronteira, constrói uma casa ou fecha as contas do Estado.
É nessa hora que termina o espetáculo e começa aquilo que realmente interessa: governo!
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