“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram até o sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: Me ajude a olhar”
Por Rogério Alexandre Zanetti
Penso cada vez mais na missão que temos aqui na Terra. Não imagino que todos tenhamos chegado com uma tarefa escrita em algum lugar, à espera de ser descoberta. Talvez nossa missão se revele aos poucos, na maneira como atravessamos os dias e, sobretudo, na maneira como encontramos as outras pessoas.
Cada ser humano contempla o mundo de uma janela oposta ao outro. Carregamos nossas histórias, feridas e convicções e os caminhos que precisamos percorrer em nossas jornadas pessoais. Há dores que desconhecemos por completo por trás de rostos que vemos todos os dias. Há escolhas que só fazem sentido para quem conhece a estrada inteira.
Por isso, tenho procurado julgar menos e escutar mais. Nem sempre consigo. Também levo comigo minhas certezas, mas certezas são mochilas cheias de limitações. Mas, compreender o outro começa quando entendemos, e admitimos, que nossa janela não oferece a vista completa do mundo.
Por mais distintas que sejam nossas jornadas, há algo que partilhamos, o espanto de estar vivos e a tentativa, nem sempre serena, de encontrar sentido nisso. Buscamos amor, pertencimento e alguma paz. Desejamos que nossa passagem tenha significado, mesmo sabendo que ela é breve.
A finitude, confesso, ainda me causa inquietação. Há dias em que penso no tempo como uma dádiva; em outros, sinto o peso de vê-lo escapar. Gosto de acreditar que a morte seja uma passagem para algo maior do que conseguimos compreender daqui. Não sei que forma teria esse destino. Talvez ninguém saiba. Ou muito pouca gente. Mas, a possibilidade de que a existência prossiga de outra maneira me convida a olhar com mais cuidado para esta vida, que é a única sobre a qual posso agir agora.
Se há algo além, certamente o que levaremos conosco tenha menos a ver com o que acumulamos e mais com o que fomos capazes de oferecer. O tempo dedicado a alguém, o perdão que não custou a chegar, a palavra dita na hora certa, a mão estendida quando seria mais fácil seguir adiante.
Não penso nisso como uma contabilidade de boas ações. Penso na marca que deixamos uns nos outros, muitas vezes sem perceber, porém, indeléveis. Uma pessoa pode mudar o rumo de outra com um gesto pequeno, mas também pode feri-la com uma palavra que parecia sem importância. Se compartilhamos a mesma passagem, temos alguma responsabilidade pela forma como a tornamos mais leve ou mais difícil para quem caminha ao nosso lado.
Tenho, a cada dia mais, acreditado que uma das razões de estarmos aqui é recordar, no encontro com outros seres humanos, aquilo que somos. Às vezes, é no outro que reconhecemos nossa fragilidade. Em outras, descobrimos uma coragem que não sabíamos possuir. E talvez o amor nasça desse reconhecimento, o da consciência de que, apesar de todas as diferenças, ninguém atravessa a vida inteiramente sozinho.
Não sei o que nos espera depois, logo ali, depois desta via. Sei apenas que estamos aqui por um tempo, diante de janelas diferentes, sob o mesmo céu. Enquanto essa passagem durar, quero aprender a enxergar além da minha própria vista. Talvez seja assim, uns através dos outros, que encontremos algum sentido para essa viagem que, de tanta imensa, repito o menino Diego e peça a você: me ajude a olhar!





