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A infidelidade é um dos temas mais complexos, dolorosos e debatidos das relações humanas. Quando pensamos em traição, a tendência quase imediata é associar o ato a casamentos falidos, falta de amor ou problemas de convivência. De acordo com a renomada psicoterapeuta belga Esther Perel, reconhecida mundialmente como uma das maiores autoridades em relacionamentos e com mais de 45 anos de prática clínica, traz uma perspectiva que vira essa lógica do avesso.
Segundo Perel, autora dos best-sellers Mating in Captivity (Surgindo em Cativeiro) e The State of Affairs (Casos e Casos), existe um hábito comportamental e psicológico comum a praticamente todos os traidores. E, surpreendentemente, ele tem muito pouco a ver com o parceiro traído.
O Hábito de Buscar uma Nova Versão de Si Mesmo
De acordo com as observações e estudos de Perel, o hábito central de quem trai não é a busca por um novo corpo ou por um novo amor, mas sim o hábito de buscar uma nova versão de si mesmo.
Muitas pessoas que traem estão em relacionamentos estáveis, felizes e com parceiros que amam. O que elas buscam na infidelidade é uma fuga das responsabilidades, das rotinas e das identidades sufocantes que assumiram ao longo dos anos (como o papel de “provedor perfeito”, “mãe exemplar” ou “parceiro previsível”).
“Quando traímos, muitas vezes não estamos virando as costas para o nosso parceiro, mas para a pessoa em quem nos tornamos. Não estamos necessariamente procurando outro amante, mas outra versão de nós mesmos.”
— Esther Perel
Os Pilares do Comportamento do Traidor
Para entender como esse hábito se manifesta no dia a dia, Perel destaca três fatores psicológicos que alimentam o comportamento de quem trai:
| Fator Psicológico | Como se manifesta |
| Desejo de Autorenovação | O traidor usa o caso extraconjugal para se reconectar com partes esquecidas de sua personalidade (sua juventude, sua rebeldia ou sua espontaneidade). |
| A Busca pelo Proibido | O hábito de quebrar regras gera uma descarga de dopamina. Para muitos, o verdadeiro vício não é o sexo em si, mas a adrenalina do segredo e da transgressão. |
| Anestesia contra a Mortalidade | A traição costuma acontecer após perdas significativas (morte de pais, crises de meia-idade ou diagnósticos de doenças). É o hábito de usar o erotismo como um antídoto contra a dor e o envelhecimento. |
O Grande Mito: “Quem trai faz isso porque o relacionamento está ruim”
O trabalho de Esther Perel revolucionou a terapia de casais justamente por desmistificar a ideia de que a traição é sempre o sintoma de um casamento falido. Ela pontua que existem casais que se dão muito bem, têm uma vida íntima saudável e, mesmo assim, um dos lados acaba traindo.
A infidelidade, sob essa ótica, é uma crise de identidade. O hábito de buscar fora o que a pessoa sente que “morreu” dentro de si é o verdadeiro motor da traição. É a busca por atenção, por se sentir vivo e desejado novamente, livre das amarras do cotidiano.
É possível superar?
Para Perel, a traição é uma bomba atômica no relacionamento, mas não precisa ser o fim definitivo. Ela defende que muitos casais conseguem reconstruir a relação após um caso, transformando o trauma no início de um “segundo casamento” com a mesma pessoa — desta vez, com base em conversas muito mais honestas, profundas e realistas sobre os desejos e limites de cada um.
O Segredo





