Escala 6×1: risco de desemprego e aumento nos preços em MS
Movimento na Rua 14 de Julho, uma das principais do comércio em Campo Grande. (Foto: Arquivo)
Enquanto o Governo Federal e entidades trabalhistas defendem o fim da escala 6×1 em nome do bem-estar dos empregados, o setor empresarial não prevê um cenário otimista para a “saúde” da economia de Mato Grosso do Sul. Empresários afirmam que a medida pode provocar aumento nos preços de produtos e serviços, demissões e prejuízos bilionários.
Com o empenho do governo federal em aprovar a proposta nos próximos meses, o empresariado sul-mato-grossense também se articula contra a medida.
FCDL
A Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado (FCDL), por meio da Confederação Nacional da categoria, uniu forças com outras 100 entidades do setor privado para se posicionar contra a redução da jornada de trabalho.
O grupo entregou um manifesto ao Senado pedindo que o debate seja adiado para o ano seguinte, após as eleições. O objetivo é evitar que a pressão do período eleitoral interfira na decisão dos parlamentares. O varejo é responsável por cerca de 65% dos empregos formais em Mato Grosso do Sul.
Segundo a presidente da FCDL, Inês Santiago, se a jornada for reduzida, o custo da hora trabalhada aumentará, e o impacto chegará ao bolso do consumidor. A estimativa é de um aumento de 13% no preço final de produtos e serviços.
“A PEC da base governista jamais vai se cumprir enquanto não discutirmos a carga tributária sobre a remuneração do nosso trabalhador, sobre tudo o que ele consome. No supermercado é que o trabalhador sente sua remuneração, e isso não está sendo discutido. Queremos um trabalhador descansado, sim, mas para isso ele precisa ganhar melhor. E para ele ganhar melhor, o governo precisa desonerar a folha de pagamento e rever todos os impostos sobre empregos no Brasil.”Inês Santiago.
Inês Santiago. (Foto: TV Morena)
Fecomércio
Já a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio) considera a mudança “impraticável” e alerta que a redução da jornada pode gerar desemprego e falta de mão de obra.
“Num primeiro momento teremos falta de pessoas para atender o público. Num segundo momento, se o empresário precisar contratar para cobrir dois turnos, terá custos maiores e não encontrará mão de obra suficiente. Esses custos serão repassados.”Fernando Camilo.
Fernando Camilo. (Imagem: TV Morena)
Fiems
A indústria também prevê impactos significativos. O setor representa 22% do PIB do estado e gera mais de 170 mil empregos. Segundo a Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (FIEMS), o custo extra para a indústria, caso a jornada caia para 36 horas, ultrapassaria R$ 2 bilhões por ano, conforme o presidente da entidade.
“Entendo que o Congresso deve discutir todas as pautas, inclusive esta, mas a matéria está superada pela última reforma trabalhista, que já permite acordos para redução de jornada. Discutir uma emenda constitucional em ano eleitoral não é adequado. Precisamos discutir, sim, mas não neste período.”Sérgio Longen, presidente da FIEMS.
Sérgio Longen. (Imagem: TV Morena)
A proposta
Atualmente, sete em cada dez trabalhadores brasileiros trabalham sete dias por semana e folgam apenas um. Quem defende a mudança para dois dias de folga e cinco de trabalho argumenta que a medida traria benefícios à saúde física e mental dos empregados, com mais tempo para lazer, família e estudos.
Com o apoio de Erika Hilton (PSOL), uma das vozes mais atuantes a favor da mudança, a discussão ganhou maior tração a partir de 2024, embora propostas nesse sentido já existissem anteriormente.
Em 2015, o senador Paulo Paim (PT), do Rio Grande do Sul, apresentou uma proposta para fixar a jornada em oito horas diárias e 36 semanais, na prática cinco dias de trabalho e dois de folga, com implementação progressiva.
Na Câmara Federal, em 2019, o deputado Reginaldo Lopes, de Minas Gerais, defendeu proposta semelhante, com prazo de transição de dez anos para alterar a escala 6×1 para 5×2. Já Erika Hilton defende a implementação em até um ano.
Movimento no Centro de Campo Grande. (Imagem: Marcus Vinnicius)
Ano eleitoral
O advogado trabalhista Ricardo Sitorski acompanha o debate. Segundo ele, nenhuma das propostas apresentadas traz redução de salários, e o governo deve fazer esforço para votar o tema ainda este ano.
“É um ano eleitoral, com muitas promessas de campanha. Esta pauta é um mote de campanha do governo. Existe pressão para que as propostas sejam analisadas e, se possível, aprovadas, mas haverá resistência da sociedade. É uma possibilidade, mas com oposição”.