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A cena é comum em milhares de lares: após um dia exaustivo de trabalho, gestão doméstica e cuidados com os filhos, o casal se deita, cada um voltado para o seu lado da cama, imerso na tela do celular. O beijo de boa noite torna-se protocolar. A intimidade, que antes era o motor da relação, parece ter sido engolida por uma agenda de obrigações. Mas por que isso acontece?
A renomada psicoterapeuta belga Esther Perel, uma das maiores autoridades mundiais em relacionamentos e autora do best-seller Mating in Captivity (Sextante, “Sexo no Cativeiro”), explica que o desejo humano habita o espaço entre a segurança e a aventura.
Segundo Perel, o amor busca a proximidade, a segurança e a previsibilidade — o “porto seguro”. Já o desejo precisa de mistério, novidade e uma certa “distância” para florescer. “Hoje em dia, esperamos que uma única pessoa nos dê o que antes uma aldeia inteira fornecia: segurança, estabilidade, mas também mistério e êxtase”, afirma a especialista. Quando a rotina torna tudo 100% previsível, o fogo do interesse muitas vezes se apaga.
A ciência explica que, no início de uma relação, o cérebro é inundado por dopamina (o neurotransmissor da recompensa e da novidade). Com o passar dos anos e a consolidação da rotina, os níveis de dopamina baixam, dando lugar à oxitocina, o “hormônio do apego”.
Embora a oxitocina seja fundamental para a longevidade do casal e a criação de laços profundos, ela não é, por si só, uma geradora de desejo sexual. Um estudo publicado no Journal of Sex Research aponta que a “manutenção do desejo a longo prazo” exige que os casais cultivem ativamente a novidade, saindo do piloto automático biológico.
Outro fator é a carga mental. Especialistas como a Dra. Emily Nagoski, autora de Come as You Are, destacam que o desejo não funciona apenas com um “acelerador”, mas também com “freios”. O estresse crônico, a má divisão das tarefas domésticas e a falta de tempo para o autocuidado atuam como freios potentes.
Para muitos casais, a intimidade não morre por falta de amor, mas por exaustão. Quando a parceria se transforma apenas em uma “sociedade logística” (quem busca as crianças, quem paga a conta, o que vamos jantar), o corpo deixa de ver o parceiro como um objeto de desejo e passa a vê-lo apenas como um colega de tarefas.
Como Reverter o Cenário?
A ciência e a psicologia sugerem caminhos para resgatar o que foi perdido:
A “Distância Saudável”: É necessário que cada indivíduo mantenha sua autonomia e hobbies próprios. Ver o parceiro brilhar em algo independente ajuda a reacender a admiração.
Intencionalidade: Esperar que o desejo apareça “do nada” como no início do namoro é um mito. Casais duradouros precisam marcar momentos de conexão, protegendo esse tempo das distrações digitais.
Comunicação Não-Sexual: A intimidade física é precedida pela intimidade emocional. Conversas que fujam da logística da casa são fundamentais para manter o canal aberto.
A rotina é inevitável, mas o tédio é opcional. Entender que a manutenção do desejo exige esforço consciente e a quebra da previsibilidade é o primeiro passo para que o casal deixe de ser apenas “parceiro de conta bancária” e volte a ser amante. Como diz Esther Perel: “O amor é ter; o desejo é querer”. Manter o “querer” vivo é a arte de redescobrir a mesma pessoa todos os dias.
Olga Cruz
Com informações de Perel, Esther. “Mating in Captivity: Unlocking Erotic Intelligence”. Nagoski, Emily. “Come as You Are: The Surprising New Science that Will Transform Your Sex Life”. Estudos do The Gottman Institute sobre estabilidade conjugal.





