Há algo de muito singular na forma como o Sol toca o chão de Campo Grande. Ele não apenas ilumina; ele acende essa terra vermelha tão viva que parece pulsar sob os nossos pés, como se o próprio solo guardasse o calor de quem aqui chegou e decidiu ficar!
E, no fim de cada dia, quando a luz se despede, a cidade revela outro de seus tesouros mais famosos: aquele que muitos dizem ser o céu mais lindo do Brasil!
No entardecer, o horizonte vira uma tela aberta onde o céu se veste de tons multicoloridos — uma aquarela viva de rosa, violeta, dourado e laranja que desacelera os passos de quem olha para cima.
Aos 127 anos, a nossa Cidade Morena equilibra-se nesse mistério bonito: tem corpo de metrópole e alma de alpendre…
Com seus 962.883 habitantes, as estatísticas insistem em dizer que já passamos do patamar dos grandes centros. Mas a estatística não entende de cotidiano. Ela não sabe que, por aqui, a vida ainda corre no ritmo de quem se cumprimenta pelo nome na padaria.
É um lugar onde a distância entre dois desconhecidos dura apenas o tempo de uma roda de tereré ou o compasso de um abraço. Campo Grande é grande no mapa, mas é pequena no peito, e cabe toda inteira no afeto de quem a vive aqui.
Somos feitos de um mosaico de sotaques, sabores e memórias. O perfume dos sobás e a disciplina dos imigrantes japoneses entrelaçam-se à generosidade da culinária libanesa, enquanto a força de quem veio do Sul, o trabalho do interior paulista, a garra dos paranaenses, o encanto capixaba e a mansidão dos nossos irmãos mineiros desenharam a nossa identidade.
Cada povo que aqui aportou trouxe um tijolo e uma canção para erguer a nossa história!
Essa terra sempre teve o dom de inspirar a arte que ganha o mundo. Foi o chão que acolheu a poética transbordante de Manoel de Barros, transformando passarinhos e miudezas na mais alta poesia.
Foi aqui que Luan Santana deu seus primeiros passos para conquistar palcos internacionais, e onde vozes como Almir Sater, Tostão e Guarany, e os irmãos Espíndola imortalizaram a sonoridade e a alma do nosso Pantanal e do nosso cerrado. É a cidade que respira cultura e faz do cotidiano um espetáculo à parte.
Claro que nem tudo são flores sob o verde exuberante de nossas avenidas. Olhamos para a cidade com a honestidade de quem ama: enxergamos os buracos no asfalto, o trânsito que exige paciência e as dores de crescimento inevitáveis para uma Capital desse porte.
Reclamamos, sim, porque quem ama cuida e quer o melhor para a sua casa!
Mas, quando o dia vai embora sob esse espetáculo de luzes, com as capivaras e araras cruzando a paisagem com a paz de quem é dona do pedaço, a certeza sobressai: não há lugar melhor para se viver!
Parabéns, Campo Grande, pelos seus 127 anos!
Que a sua terra vermelha e o seu céu infinito continuem a acolher, a renovar e a abrigar os sonhos de todos os que têm o privilégio de chamá-la de lar!
Olga Cruz





