Existe um melhor horário do dia para treinar? Uma pesquisa publicada na revista científica Open Heart indica que a resposta não é a mesma para todas as pessoas. Segundo o estudo, o período em que alguém pratica exercícios pode fazer diferença nos resultados quando está alinhado ao cronotipo, ou seja, à tendência natural de cada pessoa de funcionar melhor mais cedo ou mais tarde ao longo do dia.
Os pesquisadores observaram que adultos que conseguiram treinar em horários compatíveis com seu cronotipo apresentaram benefícios mais expressivos em indicadores como pressão arterial, metabolismo, condicionamento físico e qualidade do sono. Isso não significa, porém, que exista uma hora considerada perfeita para todos, mas que o melhor momento para o treino pode variar de pessoa para pessoa.
Para chegar a essa conclusão, o estudo reuniu 150 adultos sedentários, com idades entre 40 e 60 anos e pelo menos um fator de risco cardiovascular. Dos participantes inicialmente selecionados, 134 concluíram as 12 semanas de acompanhamento. Eles foram classificados como matutinos ou vespertinos e depois divididos entre quem iria treinar em um período compatível com o próprio cronotipo e quem faria exercícios em um horário considerado desalinhado.
Durante as 12 semanas, os participantes realizaram exercícios aeróbicos de intensidade moderada cinco vezes por semana, em sessões supervisionadas de 40 minutos. Dessa forma, os pesquisadores conseguiram comparar se treinar em sintonia com o ritmo natural do organismo poderia proporcionar vantagens adicionais em relação à prática realizada em outro período do dia.
O detalhe que fez diferença nos resultados do treino
Ao final das 12 semanas, os dois grupos apresentaram benefícios com a prática de atividade física. A diferença apareceu quando os pesquisadores compararam a intensidade dessas mudanças.
Quem treinou em horários compatíveis com o próprio cronotipo apresentou resultados mais expressivos em diferentes indicadores de saúde, incluindo pressão arterial, capacidade aeróbica, colesterol LDL, glicemia de jejum e qualidade do sono.
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Um dos dados que mais chamaram atenção envolveu a pressão arterial sistólica. Entre os participantes que fizeram exercícios em horários alinhados ao cronotipo, a redução média foi de 10,8 mmHg. No grupo que treinou em períodos desalinhados, a diminuição foi de 5,5 mmHg.
A diferença não significa que o segundo grupo tenha treinado “errado”. Pelo contrário: os participantes também melhoraram. O estudo sugere que respeitar o ritmo individual pode funcionar como uma vantagem adicional.
Matutino ou vespertino: o que o cronotipo revela sobre você?
É aqui que entra uma questão importante: duas pessoas podem seguir exatamente o mesmo treino e, ainda assim, ter momentos do dia diferentes nos quais se sentem mais dispostas.
O cronotipo está relacionado à tendência natural de uma pessoa apresentar maior disposição em determinados períodos do dia. Algumas acordam cedo espontaneamente e funcionam melhor nas primeiras horas da manhã. Outras demoram mais para atingir seu melhor nível de energia e costumam render mais no fim do dia.
No estudo, os participantes foram classificados como matutinos ou vespertinos. Essa definição foi feita por meio de um questionário específico e complementada pelo monitoramento da temperatura corporal durante 48 horas.
O cardiologista Israel Guilharde Maynarde, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, explica que essas diferenças não se limitam a uma simples preferência pessoal.
Ao longo das 24 horas, fatores como pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura corporal, metabolismo e respostas hormonais apresentam oscilações relacionadas ao ritmo circadiano. Por isso, o organismo de uma pessoa não responde exatamente da mesma maneira em todos os períodos do dia.
Pressão arterial, colesterol e sono: onde apareceram os benefícios
A influência do horário não ficou restrita ao desempenho durante o exercício. Os pesquisadores observaram diferenças em indicadores diretamente relacionados à saúde cardiovascular e metabólica.
Entre os participantes que já apresentavam hipertensão, aqueles que fizeram exercícios em períodos compatíveis com o cronotipo tiveram uma redução mais expressiva da pressão arterial sistólica — aquela registrada quando o coração se contrai para bombear o sangue.
A pressão sistólica elevada está relacionada a maior risco de problemas como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e doença renal.
Mas esse não foi o único resultado observado. O grupo que treinou de acordo com o próprio cronotipo também apresentou resultados superiores em parâmetros como capacidade aeróbica, colesterol LDL, glicemia de jejum e qualidade do sono.
A relação com o sono ajuda a mostrar por que o assunto vai além de simplesmente decidir entre academia pela manhã ou depois do trabalho. Exercícios, sono e ritmo circadiano fazem parte de uma rotina que pode influenciar a maneira como o organismo responde ao longo do dia.
Afinal, qual é o melhor horário para fazer exercícios?
Depois de todos esses resultados, pode parecer que basta descobrir o cronotipo para encontrar um “horário perfeito” para treinar. Mas a conclusão é mais cuidadosa.
O estudo não estabelece uma única hora ideal para todas as pessoas. Para alguém com perfil matutino, treinar mais cedo pode estar mais alinhado ao funcionamento natural do organismo. Já uma pessoa vespertina pode encontrar maior compatibilidade em períodos posteriores.
Também não significa que quem só consegue fazer exercícios fora do horário considerado mais favorável esteja perdendo tempo. Os participantes que treinaram em períodos desalinhados igualmente apresentaram melhorias cardiovasculares e metabólicas.
Na prática, portanto, a regularidade continua sendo mais importante do que perseguir um horário perfeito. O cronotipo aparece como uma possibilidade de personalização capaz de ampliar alguns benefícios, e não como uma condição obrigatória para que o exercício funcione.
Os resultados também ajudam a colocar em perspectiva outra dúvida comum: fazer exercícios pela manhã aumenta o risco de infarto? Embora eventos cardiovasculares sejam mais frequentes nas primeiras horas do dia, isso não significa automaticamente que o exercício matinal seja perigoso para pessoas acostumadas a praticar atividade física regularmente.
Segundo Maynarde, é preciso ter atenção principalmente em casos de pessoas sedentárias ou com doença cardiovascular descompensada que iniciam esforços intensos de forma abrupta.
Por isso, a pergunta “manhã, tarde ou noite?” não possui uma resposta única. A principal mensagem da pesquisa é outra: o melhor período pode depender de como o relógio biológico de cada pessoa está organizado.
Para quem já consegue manter uma rotina de exercícios, observar em qual período existe maior disposição e consistência pode ajudar na escolha. E, quando houver liberdade de horário, considerar o cronotipo pode ser mais uma estratégia para adaptar o treinamento às características individuais do organismo.
Perguntas e respostas sobre o melhor horário para treinar
1. Existe realmente um horário ideal para treinar?
Não existe um único horário ideal para todas as pessoas. O estudo indica que os melhores resultados podem acontecer quando o treino é realizado em um período mais compatível com o cronotipo de cada indivíduo.
2. Quem é matutino deve treinar sempre pela manhã?
Não necessariamente. Pessoas com perfil matutino podem ter maior disposição e melhor adaptação aos treinos mais cedo, mas isso não significa que exercícios feitos à tarde ou à noite deixem de trazer benefícios.
3. Treinar fora do horário do cronotipo faz mal?
Não. Os participantes que treinaram em horários considerados desalinhados também apresentaram melhorias cardiovasculares e metabólicas. A diferença é que o grupo alinhado ao cronotipo teve resultados mais expressivos em alguns indicadores.
4. Como saber se meu cronotipo é matutino ou vespertino?
De maneira geral, quem acorda cedo espontaneamente e costuma ter mais disposição nas primeiras horas do dia tende ao perfil matutino. Já quem naturalmente dorme e acorda mais tarde e apresenta melhor rendimento no fim do dia tende ao perfil vespertino. Uma avaliação mais precisa pode ser feita por meio de questionários específicos.
5. O que é mais importante: o horário ou a frequência dos exercícios?
A regularidade continua sendo o principal fator. O horário pode ajudar a potencializar alguns benefícios, mas manter uma rotina consistente de atividade física é mais importante do que tentar encontrar um horário considerado perfeito.
O Segredo





