O Ibovespa inicia, nesta segunda-feira, 26, uma semana sob forte pressão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, neste domingo, 25. Logo no início do pregão, a B3 acionou o mecanismo de Circuit Breaker — quando as negociações são interrompidas por um período em momentos de forte volatilidade do mercado. Foi a primeira vez que essa paralisação foi acionada desde 2020, durante a pandemia.
Por volta das 10h48, após a suspensão dos negócios, o Ibovespa abriu em queda de 16,8%, aos 170,4 mil pontos. Uma das maiores derrocadas foi registrada nos papéis da B3 (B3SA3) e da Vamos (VAMO3), cuja desvalorização chegava a 49,94% e 59,4%, respectivamente. Empresas cíclicas, muito ligadas ao desempenho da economia, como Cogna, Cyrela, Lojas Renner e Magazine Luiza, também caíam entre 30% e 50%. Já a Petrobras amargava perdas de 11,25%.
De acordo com levantamento feito pelo Broadcast, os bancos perderam R$ 249 bilhões em valor de mercado somente na primeira hora do pregão desta segunda.
O dólar também abriu em forte alta. Por volta das 10h30, a moeda estava cotada a R$ 5,60, com uma valorização de 12%. Logo depois, o movimento arrefeceu. Na última atualização, a cotação era de R$ 5,47. No pregão de sexta-feira, 23, o câmbio fechou a R$ 4,99, após recuo de 0,92%.
A alta do dólar ante o real, no mercado à vista, representa a pior reação do mercado de câmbio no Brasil desde 15 de janeiro de 1999, quando o País encerrou o regime de bandas cambiais e adotou o câmbio flutuante, em meio à moratória do governo de Minas Gerais e à saída de Gustavo Franco da presidência do Banco Central, afirma o estrategista da Sincra, Gustavo Cruz.
Segundo ele, o mercado está precificando incertezas sobre a condução da política fiscal pelo governo reeleito, pois o resultado das urnas chancelou as medidas de gastos adotadas na gestão Lula. Os investidores já esperavam que Flávio Bolsonaro não promovesse um ajuste fiscal profundo, mas contavam com a estabilização da dívida pública. Agora, a percepção é de que a relação entre dívida e PIB poderá voltar a crescer. Cruz ressalva que essa é uma percepção inicial, que pode piorar ou se reverter conforme as medidas fiscais anunciadas por Lula.
Antes da abertura da Bolsa brasileira, ativos do País negociados em Nova York já registravam quedas expressivas. Às 9h31, o EWZ, principal ETF brasileiro negociado em Nova York, caía 25,95%. O fundo replica uma carteira de ações do País e costuma funcionar como uma referência para o comportamento dos ativos brasileiros antes da abertura da B3.
Lula foi reeleito presidente do Brasil com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do senador Flávio Bolsonaro (PL) no pleito realizado neste domingo, 25.
A confirmação do quarto mandato do petista recoloca a política fiscal no centro das atenções dos investidores. Depois de semanas marcadas pelo chamado trade eleitoral, o mercado passa agora a ajustar as expectativas para a condução das contas públicas, o comportamento dos juros e os rumos da economia nos próximos quatro anos.
Economistas ouvidos pelo Broadcast avaliam que a intensidade e a duração da reação dos ativos dependerão principalmente dos primeiros sinais de credibilidade dados pelo novo governo. Entre os pontos que entram no radar estão a composição da equipe econômica, eventuais mudanças no arcabouço fiscal e medidas para conter o avanço da dívida pública.
A economista do Peterson Institute e conselheira do Cebri, Monica de Bolle, resume o desafio como um problema de confiança. Na avaliação dela, o governo precisará do apoio do mercado para avançar em um cenário de Congresso recém-eleito e ambiente internacional mais adverso.
De Bolle considera que o atual arcabouço fiscal “já está meio morto” e precisaria passar por uma revisão urgente. Ela defende um anúncio com impacto relevante sobre as contas públicas e cita como possibilidades a redução de desonerações e a reversão de gastos tributários. Para a economista, uma medida capaz de sinalizar compromisso fiscal deveria ter impacto de pelo menos R$ 40 bilhões.
Para a economista-chefe da Lifetime, Marcela Kawauti, a reeleição faz o mercado voltar a olhar o fiscal com preocupação, após um terceiro mandato marcado por aumento do endividamento e sucessivas exceções dentro do arcabouço. A consequência, segundo ela, pode aparecer no câmbio, com estimativas entre R$ 5,50 e R$ 6,00 em 2026 e 2027.
Já o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, considera provável algum ajuste fiscal, embora mais moderado do que seria sob um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Ele projeta um dólar mais próximo de R$ 5,40 de forma sustentada em 2027 e avalia que o desempenho dos ativos dependerá de como o governo vai se organizar e do que conseguirá aprovar.
André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, também considera necessário reordenar as contas públicas, mas defende que o processo ocorra de forma gradual. Na visão dele, maior previsibilidade fiscal tende a favorecer juros e câmbio, e uma reação negativa inicial dos mercados pode perder força à medida que medidas concretas sejam apresentadas.
Além do fiscal, o mercado também deve acompanhar a composição da nova equipe econômica e as indicações para o Banco Central.
O diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, avalia que a “duração e a intensidade” do ajuste dos preços de mercado dependerão das primeiras sinalizações do novo governo. As atenções estarão voltadas principalmente para o novo ministério, a equipe econômica, as diretorias vagas do Banco Central e as futuras indicações para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo Oliveira, esses nomes ajudarão a definir a percepção dos investidores sobre a orientação da política econômica, a qualidade institucional e o compromisso com a estabilidade macroeconômica.
Kawauti também chama a atenção para a renovação de cadeiras na diretoria do BC, com duas vagas já no horizonte e outras duas previstas para janeiro. Segundo ela, isso deixaria quase metade do Comitê de Política Monetária (Copom) indicada pelo presidente.
Na prática, o mercado tende a incorporar essas decisões ao prêmio de risco enquanto tenta antecipar o grau de continuidade ou mudança na condução da política monetária.
Estadão





