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Eu queria ser Bob Dylan por apenas um dia

Por Rogério Alexandre Zanetti

Todos podemos rapidamente citar artistas extraordinários capazes de representar com perfeição o espírito de uma época. Mas, há um deles que pertence a outra categoria por não apenas traduzir seu tempo, mas ajudou a transformá-lo. Fez da canção popular um território aberto à poesia, à reflexão política, à narrativa literária, às parábolas e às grandes inquietações humanas, incluindo princípios filosóficos e da espiritualidade.

Por tudo isso, Bob Dylan é o artista que mais admiro.

“Quantas estradas alguém precisa percorrer até ser reconhecido verdadeiramente como homem?” — Blowin’ in the Wind

Minha admiração não nasce de uma única canção, de um disco específico ou de determinada fase de sua carreira. Está justamente no conjunto de uma obra que atravessou mais de seis décadas sem se deixar aprisionar sequer pelo próprio passado. Dylan mudou inúmeras vezes, contradisse expectativas, abandonou caminhos seguros e recusou-se a ser um monumento de si mesmo.­

Poucos artistas envelheceram com tamanha liberdade.

E, se me fosse permitido escolher estar na pele, a voz e a alma de um artista por apenas 24 horas, eu queria ser Bob Dylan por um dia. Não pela fama, pelos prêmios ou pela reverência que seu nome desperta, mas para compreender de onde surgem aquelas palavras, como nascem aquelas imagens e o que se passa na cabeça de alguém capaz de transformar dúvidas universais em canções que atravessam gerações.

“Quando você não possui mais nada, também não existe coisa alguma que ainda possa perder.” — Like a Rolling Stone

Robert Allen Zimmerman nasceu em 1941, em Minnesota, nos Estados Unidos. No começo dos anos 1960, já como Bob Dylan, chegou a Nova York carregando um violão, uma gaita de boca. Encontrou no folk – a tradicional música dos americanos e com pés fincados na cultura popular -, um instrumento para contar histórias, denunciar injustiças e expressar as inquietações de uma juventude que começava a questionar as estruturas políticas, sociais e morais de seu país.

Canções como “Blowin’ in the Wind”, “The Times They Are a-Changin’” e “Masters of War” fizeram dele uma espécie de porta-voz de sua geração. Mas Dylan jamais se sentiu confortável nesse papel. Quando o público acreditou que já o compreendia, ele conectou a guitarra, aproximou-se do rock e produziu uma das maiores revoluções da música popular mundial.

A passagem da música tradicional e quase sempre acústica para a eletricidade não foi somente uma mudança sonora. Representou uma declaração de independência. Dylan deixava claro que um artista não deveria permanecer onde os outros desejavam sempre encontrá-lo confortável.

Vieram então obras como “Bringing It All Back Home”, “Highway 61 Revisited” e “Blonde on Blonde”, e a canção popular ganhou imagens surrealistas, personagens enigmáticos, ironia, filosofia, religiosidade e uma linguagem até então reservada aos livros. Aqui começa a se explicar porque logo Dylan ganharia o Prêmio Nobel de Literatura.

Depois disso, Dylan percorreu o country, o blues, o gospel, o rock, as baladas confessionais e, novamente, a música tradicional norte-americana. Houve períodos de enorme aclamação e outros de incompreensão. Em todos eles, porém, sempre esteve ali o artista inquieto, decidido a avançar mesmo quando o público desejava que ele voltasse.

“Mesmo atravessando tempestades e incertezas, seguirei batendo à porta do céu.” — Knockin’ on Heaven’s Door

Para ilustrar a grandeza da obra de Dylan, basta ver a incrível história de uma das músicas mais conhecidas e regravadas da história. “Knockin’ on Heaven’s Door” foi composta por Bob Dylan para o filme Pat Garrett & Billy the Kid, de 1973, dirigido por Sam Peckinpah. Ele fez a trilha sonora de todo o filme, e a canção era para ilustrar apenas a morte do xerife Colin Baker, que, gravemente ferido, entrega seu distintivo e suas armas à esposa, sentindo que está “batendo à porta do céu”. São versos simples, repetitivos e profundamente comoventes, nos quais Dylan transforma a despedida de um personagem do Velho Oeste numa reflexão universal sobre a proximidade da morte, o abandono das batalhas e a busca por paz no instante final. Sua força atravessou gerações e inspirou inúmeras regravações, entre elas as célebres versões Guns N´Roses, Eric Clapton, Avril Lavigne, U2, Brian Ferry e até Luciano Pavarotti.

“Quem não está ocupado nascendo e se transformando já começou, pouco a pouco, a morrer.” — It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)

É essa diversidade que torna sua trajetória tão fascinante. Eu escrevi, quer dizer, o Dylan escreveu canções de protesto, histórias de amor e separação, crônicas sobre personagens reais, narrativas cinematográficas, meditações religiosas e reflexões sobre a passagem do tempo.

Em suas letras ele ora é direto e contundente, mas também consegue ser misterioso e quase indecifrável. Às vezes parece um repórter descrevendo uma tragédia; em outras, um profeta falando por imagens. Há momentos em que se apresenta como um cantor de envelhecido pelas estradas e pelo uísque barato, e outros em que recupera a figura ancestral do trovador com o violão no banco traseiro do velho Chevrolet, levando histórias de cidade em cidade.

Dylan compreendeu que uma canção não precisa entregar todos os seus significados na primeira audição, e deixa as portas abertas em suas letras. Uma palavra pode mudar o sentido de um verso; uma imagem aparentemente absurda pode revelar uma verdade emocional; uma história particular pode adquirir dimensão universal.

É também por isso que sua obra jamais envelhece, por não estar presa apenas aos acontecimentos que a inspiraram, falando sobre poder, guerra, injustiça, amor, fé, desejo, solidão, decadência e esperança — matérias-primas permanentes da experiência humana.

“Por trás de toda beleza existe alguma espécie de dor caminhando silenciosamente ao seu lado.” — Not Dark Yet

Durante muito tempo, discutiu-se se as letras de Bob Dylan poderiam ser consideradas literatura. Até vir o Prêmio Nobel de Literatura de 2016 para oferecer uma resposta histórica. A Academia Sueca reconheceu o compositor por ter criado novas expressões poéticas dentro da tradição da canção norte-americana, registrando que sua obra nasce do encontro da música com a poesia moderna. No entanto, o prêmio não transformou Dylan em poeta. Isso, sempre foi. Apenas reconheceu algo que suas canções já demonstravam havia décadas.

É justo, pois ele ampliou as possibilidades da composição popular. Depois de Dylan, uma música poderia ter muitos versos, personagens complexos, referências bíblicas e literárias, mudanças inesperadas de perspectiva e uma narrativa que não precisava conduzir a uma conclusão simples. Antes dele, a letra era apenas o caminho até o refrão, e passou a ser o próprio centro da experiência artística.

“Que suas mãos estejam sempre ocupadas e seus passos encontrem sempre um caminho firme.” — Forever Young

A dimensão de Bob Dylan pode ser medida pela quantidade de artistas alcançados por sua obra. Virou uma espécie de ídolo dos ídolos, ou compositor dos compositores. Suas canções ganharam novas vidas nas vozes de intérpretes tão diferentes quanto Joan Baez, Johnny Cash, Nina Simone, Jimi Hendrix, Elvis Presley, George Harrison, Eric Clapton, Guns N’ Roses e Adele…

Mais importante, porém, é perceber sua influência sobre a maneira de compor. Dylan abriu caminhos para que artistas como Bruce Springsteen, Neil Young, Patti Smith, Leonard Cohen, Tom Waits e tantos outros escrevessem canções mais narrativas, pessoais e literárias. Ele mostrou que o compositor popular poderia falar de política sem produzir um panfleto; tratar do amor sem recorrer ao sentimentalismo fácil; abordar a religião sem abandonar a dúvida; falar de si mesmo e, ainda assim, alcançar milhões de pessoas.

Sua influência não se resume à imitação de um estilo. Está na liberdade que concedeu às gerações seguintes.

Venham, escritores e críticos que profetizam com suas canetas.” — The Times They Are A-Changin’

A presença de Bob Dylan na música brasileira é profunda e assumiu diferentes formas. Alguns artistas gravaram suas canções; outros criaram versões em português. Muitos absorveram sua linguagem discursiva, a figura do cantor acompanhado pelo violão e a possibilidade de unir comentário social, poesia e narrativa.

Caetano Veloso foi um dos brasileiros que mais dialogaram com sua obra. Gravou “Jokerman”, “Don’t Think Twice, It’s All Right” e “It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)”. Ao lado de Péricles Cavalcanti, criou “Negro Amor”, versão de “It’s All Over Now, Baby Blue”, consagrada na interpretação de Gal Costa. Em “Ele Me Deu um Beijo na Boca” (Álbum Cores, Nomes, de 1982), Caetano construiu uma letra longa, livre e repleta de referências, na qual Dylan surge não apenas como nome citado, mas como presença estética.

Belchior também carregou algo do trovador dylaniano. Suas letras extensas, irônicas e confessionais combinavam inquietação política, desencanto geracional e referências culturais. A voz deliberadamente fora dos padrões tradicionais e a maneira quase falada de conduzir os versos reforçaram as comparações com o compositor norte-americano. Belchior chegou a mencionar Dylan diretamente em “Lira dos Vinte Anos” ele manda um “Os filhos de Bob Dylan, clientes da Coca-Cola, os que fugimos da escola, voltamos todos pra casa” e faz referência a “ser pedra que rola”, clara citação a Like a Rolling Stone. Em Vício Elegante apresenta o verso “Vou mandar-te um lay-lady-lay”, citando diretamente a famosa canção “Lay Lady Lay” de Bob Dylan. Por essas e outras, Belchior foi chamado de o Bob Dylan brasileiro “Bob Dylan brasileiro”. devido ao seu estilo de compor com versos longos, forte teor confessional e reivindicando o papel de cronista da juventude.

Zé Ramalho talvez represente o encontro mais visível entre Dylan e a cultura brasileira. Há entre os dois a figura do trovador, a voz áspera, o imaginário profético e a palavra como elemento central da canção. Em 2008, Zé lançou o álbum “Zé Ramalho canta Bob Dylan — Tá Tudo Mudando”, inteiramente dedicado a versões de seu repertório. Nele aparecem releituras como “Como uma Pedra a Rolar” (Like a rolling Stone), “O Vento Vai Responder” (Blow in the wind) e “Batendo na Porta do Céu” (Knocking on a heavens door) e uma versão de Mr. Tambourine Man chamada Mister do Pandeiro, no qual ajuda na lenda de que a canção de Dylan tenha sido inspirada no brasileiro Jackson do Pandeiro.

Por sua vez, Gilberto Gil transformou a referência em provocação musical em De Bob Dylan a Bob Marley — Um Samba-Provocação, cantando “Quando Bob Dylan se tornou cristão, fez um disco de reggae por compensação”. Geraldo Azevedo gravou “O Amanhã É Distante”, versão de “Tomorrow Is a Long Time”. O Skank levou “I Want You” ao público brasileiro por meio de “Tanto”. Fagner fez e gravou uma versão matadora de Romance in Durango chamando-a de Romance no Deserto., Diana Pequeno cantou a versão brasileira de Blowin in the wind (A resposta, meu amigo, está no ar), Zeca Baleiro canta One More Cup of Coffe e rapidamente nota que essa canção foi inspiração rítmica para a sua A Flor da Pele; Engenheiros do Hawaii gravou Negro Amor, que também fez grande sucesso na linda voz de Gal Costa na versão de Caetano Veloso para It´s All Over Now Baby Blue; a banda Vanguart imita Zé Ramalho e lança um disco todo com música de Dylan, denominado Signs Bob Dylan; e outros artistas também estabeleceram seus diálogos com o repertório dylaniano. Até mesmo Raul guardava inspirações em Dylan, e o citou na canção Eu também vou reclamar, ao cantar “Eu sou apenas o cantor, que eu já passei por Elvis Presley, imitei mister Bob Dylan”. O Clássico Ouro de tolo tem claras influências de Dylan na composição, na narrativa e na atitude não conformista. Uma pedrada no conformismo.

Odair José por um tempo ficou conhecido na imprensa brasileira dos anos 1970 como o Bob Dylan da Central do Brasil” devido ao seu estilo de compor com letras diretas, populares e focadas no cotidiano e em tabus sociais. O apelido jocoso, porém carinhoso, comparava-o ao ícone norte-americano por conta do caráter cronista de suas canções. Enquanto Dylan retratava as inquietações da juventude e da política nos EUA, Odair José cantava as dores, os desejos e a realidade das classes populares urbanas no Brasil, como por exemplo em Eu vou tirar vocês desse lugar.

Bem, essas são as que me lembro no momento, mas há uma infinidade dela. E, obviamente, naturalmente, nenhum desses compositores pode ser reduzido à influência de Dylan. Todos desenvolveram linguagens próprias, moldadas pela poesia, pelos ritmos e pelas contradições do Brasil. Mas Dylan ajudou a demonstrar que uma canção poderia comportar o mundo inteiro.

“Quem não está ocupado nascendo está ocupado morrendo.” — It’s Alright, Ma

Bob Dylan nunca foi apenas a voz de uma geração. Se tivesse permanecido preso aos anos 1960, seria uma figura histórica de imensa importância. Mas sua grandeza está também no fato de ter continuado.

Ele prosseguiu compondo, gravando e se apresentando, modificando arranjos e transformando até mesmo suas músicas mais conhecidas. Em vez de reproduzir o passado, prefere reinterpretá-lo. Não trata suas canções como peças intocáveis de museu, mas como organismos vivos. Os músicos que os acompanham em show dizem que Dylan nunca toca a mesma música do mesmo jeito, com o mesmo arranjo ou entonação.

Talvez seja essa a maior razão de minha admiração. Dylan escolheu o movimento. Aceitou o risco de desagradar, ser incompreendido e contradizer a imagem que haviam construído para ele. Sua longevidade não é apenas cronológica. É criativa.

“Conhecerei bem minha canção antes de começar a cantá-la.” — A Hard Rain’s a-Gonna Fall

Admirar Bob Dylan é admirar um artista que recusou limites. Um poeta que não precisou abandonar a música para fazer literatura. Um trovador que levou histórias, dúvidas e profecias pelos palcos do mundo. Um compositor que influenciou gerações sem exigir que elas soassem como ele.

Dylan ensinou que a canção popular pode ser simples sem ser superficial, política sem ser previsível e chata, poética sem perder a força popular. Sua obra atravessou idiomas e fronteiras porque trata de questões que nenhum tempo consegue encerrar.

Eu queria ser Bob Dylan por apenas um dia, para experimentar o instante em que uma imagem aparentemente comum se transforma em poesia. Queria entender como uma pergunta lançada ao vento pode pedir resposta e permanecer viva durante décadas. Queria conhecer, por dentro, o mecanismo misterioso que combina palavras, melodias, personagens e silêncios para construir uma obra que parece não ter fim.

Mas, talvez eu, quer dizer, nem o próprio Dylan seja capaz de explicar completamente esse mistério, e as respostas continuam soprando no vento. Bob Dylan, porém, permanece na estrada — mudando de voz, de ritmo e de direção, enquanto suas palavras seguem encontrando novas gerações dispostas a ouvi-las.

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