Imagem: Canva
Costumo dizer que mulher mesmo escrito no singular já é plural, um ser único e complexo em sua totalidade; são crenças, etnias, ideologias que carregam sua história. Por muito tempo a mulher não foi dona do seu próprio corpo e hoje ainda luta para que ele seja totalmente seu, com o devido e justo respeito da sociedade masculina.
A mulher adquire força por necessidade de consideração e as batalhas que trava diariamente a fortalecem. A mulher, em sua pluralidade, alcançou o poder feminino e hoje, tal qual o homem, também é forte.
A resistência, porém, às suas conquistas ainda é muito grande e parte de uma visão machista contrariada e indignada com a evolução histórica da mulher, que abandonou o conceito de ser um simples prolongamento da figura masculina e adquiriu sua própria identidade, exigindo o reconhecimento como tal, valorizando suas conquistas no decorrer do tempo, mas não se limitando a elas, e sim, fazendo delas a força motriz para alcançar novos horizontes, sem qualquer pressão e com reconhecimento igualitário ao homem.
É óbvio que qualquer movimento histórico de luta traz consigo considerável desgaste emocional, principalmente quando esse movimento perdura por décadas ou séculos, como é o caso do movimento feminista. Isso, sem sombra de dúvida, é um mal necessário para um bem maior, que vai impactar a saúde mental.
A mulher por muito tempo foi conceituada como cuidadora, porque cuidava da casa, do marido e dos filhos. Quando ganhou o direito de exercer uma profissão fora de casa, passou a ser vista como um ser de dupla jornada, já que mantinha os cuidados iniciais em casa e exercia funções laborativas fora do ambiente doméstico. Conseguiu isso por uma luta exclusivamente sua, pois achava que poderia contribuir com as despesas de casa e se sentia capaz de fazê-lo.
A partir de então, a sociedade, eminentemente machista, aceitou seu trabalho, mas não o valorizou da mesma forma que o fazia com o homem. O primeiro reflexo vinha no salário, bem menor que dos profissionais masculinos, o que propiciava ao marido se posicionar em desfavor do trabalho da esposa, que muitas vezes contratava uma empregada doméstica para cuidar da casa e seus proventos eram direcionados, quase que totalmente, para esse compromisso.
A mulher não via por essa ótica, mas como o início de um movimento em que poderia mostrar seu valor, sua capacidade e lutar pela igualdade, que vinha ano a ano se aproximando do gênero oposto.
Hoje, assim como o homem, a mulher tem um, dois ou mais trabalhos fora, é claro que se observa que ainda é ela a principal cuidadora de casa, mas nem sempre é a única como antigamente. Atualmente, a dupla jornada passou a ser tripla pelo cuidado aos pais idosos, cada vez mais longevos, graças ao desenvolvimento da medicina.
A falta de autonomia em tempos passados, quando não era permitido, ou pelo menos bem visto, trabalho feminino fora dos muros residenciais, quando a mulher sequer podia votar ou cursar uma faculdade, quando vivia enclausurada no ambiente domiciliar, lhe trouxe sofrimento psíquico; a luta contra isso é necessária, mas também é desgastante, nada é fácil.
Houve épocas em que o comportamento feminino menos conservador era visto como doença, foi patologizado. A mulher que transcendia o papel de esposa, mãe e dona de casa era vista como doente, com comportamento anormal, por vezes histérico.
Sofrimento mental verdadeiro existia, mas era vivido em silêncio; a depressão e a mulher deprimida coabitavam a mesma clausura, muitas vezes sintomas mentais femininos eram taxados como “fraqueza de mulher”, algo que somente atingia o sexo frágil.
Hoje a mulher tem sua própria voz, que grita cada vez mais alto pelos seus direitos e pelo direito de todos, saiu de seu nicho feminino e alcançou a sociedade humana, ainda que ainda sofra muito com a desumanidade de um mundo que não deixou por completo de ser machista. A mulher do passado não tinha voz, não tinha escolha, era simplesmente calada, aguentava tudo.
Hoje, a mulher luta contra essa estrutura de desrespeito e de não acolhimento. Sofria ontem e continua sofrendo hoje por uma luta justa, que não seria necessária, caso houvesse transformação sadia da sociedade. A mulher sofre mais porque é mais sobrecarregada e seu sofrimento é questão importante de consideração da saúde pública.
Marcos Estevão – Primeira Página





