A literatura sul-mato-grossense vive um momento de celebração e renovação. A Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL) anunciou a eleição de dois grandes nomes da cultura do Estado para ocupar suas cadeiras vitalícias: o cronista e romancista urbano André Alvez e o escritor Brígido Ibanhes, consagrado por sua literatura de fronteira. Eles assumirão, respectivamente, as cadeiras de números 28 e 13.
A escolha ocorreu após um processo concorrido que mobilizou a comunidade literária, contando com seis candidatos inscritos — além dos eleitos, disputaram as vagas Isaac Ramos, Vilma Carli, Ewerton Carvalho e Janet Zimmermann. Conduzida com expressiva presença dos acadêmicos na sede da entidade, a sessão de votação consagrou Alvez e Ibanhes com as maiores votações.
O presidente da ASL, Henrique Alberto de Medeiros Filho, destacou o peso institucional da escolha. Segundo ele, ambos trazem uma relevância que ultrapassa a figura do escritor: “São nomes que têm grande presença e fazem parte viva do contexto cultural de Mato Grosso do Sul”.
O sentimento foi partilhado pelo secretário-geral da instituição, Rubenio Marcelo, que pontuou que a chegada dos novos membros “dignifica a história da ‘Casa de Ulysses’ e a preservação e desenvolvimento da língua, das letras e da cultura no Estado”. O processo foi coordenado pelo acadêmico Abrão Razuk, que também reforçou o papel da ASL como guardiã da identidade cultural sul-mato-grossense.
As Novas Vozes da “Casa de Ulysses”
Os novos imortais sucedem a duas grandes perdas sofridas pela instituição em 2023. André Alvez ocupará a Cadeira 28, sucedendo o saudoso Augusto César Proença. Já Brígido Ibanhes assume a Cadeira 13, antes ocupada pelo estimado Antônio João Hugo Rodrigues.
Cumpridas todas as exigências estatutárias, os escritores agora aguardam a marcação das datas para as solenidades de posse.
André Alvez: O Olhar Urbano e o Mistério da Cidade
Nascido e criado na Capital, com raízes profundas no tradicional bairro Amambaí, André Alvez consolidou-se como uma das vozes mais ativas e versáteis de sua geração. Escritor, roteirista e publicitário, Alvez traz na bagagem a experiência de ter presidido a União Brasileira de Escritores de MS (UBE-MS) entre 2017 e 2018.
Sua sensibilidade para traduzir o cotidiano ficou registrada em suas crônicas publicadas no jornal Correio do Estado por mais de uma década e, atualmente, na coluna semanal “Beba das crônicas”, no portal Campo Grande News. No entanto, o universo de André vai além: inspirado pelo imaginário das lendas urbanas contadas por sua mãe, o autor migrou com maestria para os romances de ficção e mistério.
Com sete livros publicados — incluindo os premiados A Bruxa da Sapolândia, O Santo de Cicatriz e o recente Flores azuis não vão para o céu —, Alvez também transita com sucesso pelo cinema e audiovisual, assinando roteiros e direções cinematográficas.
Brígido Ibanhes: A Identidade e a Oralidade da Fronteira
Natural de Bela Vista, cidade moldada pelas águas do Rio Apa e pela proximidade com o Paraguai, Brígido Ibanhes fez da fronteira a sua grande matéria-prima literária. Técnico em contabilidade por formação, ele construiu uma trajetória multifacetada como escritor, ativista cultural e ferrenho defensor dos direitos humanos.
Ibanhes é o mestre da “linguagem de fronteira”, um observador atento do encontro entre o português, o espanhol e o guarani. Sua escrita navega com rigor entre o jornalismo investigativo, a pesquisa histórica e a ficção, dando voz a personagens marginalizados pela história oficial. O regionalismo, a tradição mística guarani e a denúncia política marcam seus 11 livros publicados.
Entre suas obras de maior impacto acadêmico e literário estão Silvino Jacques: O Último dos Bandoleiros e Che Ru (Chirú): O Pequeno Brasiguaio. Sua relevância para o Estado também se traduz na gestão cultural: foi membro-fundador e primeiro presidente da Academia Douradense de Letras (ADL), cargo que ocupou por três mandatos, além de atuar como Cônsul em Dourados para a organização internacional Poetas del Mundo.
Mais de Meio Século de História
Fundada há 54 anos pelos escritores Ulysses Serra, Germano de Souza e José Couto Pontes, a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras conta com 40 cadeiras vitalícias inspiradas no modelo da Academia Brasileira de Letras (ABL). Nascida originalmente em Campo Grande, a instituição expandiu seu horizonte e adotou o nome atual em dezembro de 1978, acompanhando a criação do Estado.
Com a chegada de Alvez e Ibanhes, a ASL reafirma seu papel de vanguarda e solidez na preservação da memória e no incentivo às novas páginas da literatura regional. Mais informações sobre os acadêmicos e a agenda da instituição podem ser acessadas no site oficial: www.acletrasms.org.br.
Olga Cruz





